A Invernar
É fácil este tempo, não há nada para fazer.
Pus a andar a centrifugadora da parteira,
Tenho o meu anel,
Seis jarros dele,
Seis olhos de gato na adega,
A invernar na escuridão sem janela
No coração da casa
Junto à compota rançosa do último inquilino
E de garrafas de brilhos vazios
Gin do senhor D. Fulano.
Este é quarto onde nunca estive.
Este é quarto onde nunca pude respirar
O escuro enfeixou-se lá como um morcego,
Sem outra luz
Que a da tocha e seu desmaiado
Amarelo-chinês sobre objectos aterradores –
Obstinação negra. Ruína.
Posse.
São elas que me têm.
Nem cruéis nem indiferentes,
Apenas ignorantes.
Este é um tempo de espera para as abelhas – as abelhas
Tão lentas que mal as conheço,
Em fila como os soldados
Para a lata do xarope
Para compensar o mel que lhes tirei.
O Tate & Lyle mantém-nas activas,
Neve refinada.
Vivem de Tate & Lyle em vez de flores.
Tomam-no. O frio instala-se.
Agora amontoam-se uma sobre as outras,
Negra
Razão contra todo aquele branco.
O sorriso da neve é branco.
Alastra como porcelana de Meissen de uma milha de comprimento,
Para onde, nos dias quentes,
Só podem carregar os seus mortos.
Todas as abelhas são mulheres,
As servas e, mais alongada, a real Senhora.
Livraram-se dos homens,
Desses insensíveis, desses desastrados sem graça, desses brutamontes.
O Inverno é para as mulheres –
A mulher, quieta, a fazer malha,
Junto ao berço de nogueira espanhola,
O seu corpo é um bolbo ao frio, e tem o ar parado de quem não pensa.
A colmeia vai sobreviver, os gladíolos vão
Conseguir apagar os seus fogos e
Entrar em mais um ano?
A que é que saberão, as rosas-do-natal?
As abelhas voam. Já sentem o gosto da Primavera.
Sylvia Plath
In “Ariel”, Relógio D’Água
Trad. Maria Fernanda Borges
As duas Mulheres
Rezai por ela, a mulher que trocou
as lágrimas por palavras: e ainda
escreve, num caderno de noite e de
névoa, o poema sem rima nem versos.
E rezai por essa outra, ébria de
luz, que fecha os olhos para se
rir, ocultando o rosto nos ombros
do soldado. Nenhuma delas se encontrou,
em margem alguma; e correm
em direcções contrárias os rios
das suas vidas. No entanto, o choro
de uma tocou a outra, e esta emudece.
“Que tens?”, inquieta-se o homem. E
ela empurra-o, de olhos abertos,
enfrentando a luz: “Uma estranha
irmã chamou por mim; e confundiu-se
comigo; e roubou-me o riso dos lábios”.
Nuno Júdice
In “Poesia Reunida 1967-2000”, Dom Quixote
A melancolia derrete pelo meu corpo nostalgicamente…
Mergulho nas minhas memórias.
Sinto a sua presença… Quase o sinto respirar…
Não tenho coragem de olhar para trás, tenho medo de quebrar toda a magia…
Deixa-me sentir-te… Murmuro. Deixa-me sentir-te…
Fecho os olhos e mergulho mais profundamente…
Sinto uma carícia no meu cabelo…
Aí, um soluço solta-se bem do fundo do meu peito, e rebento num choro sentido, sufocado, convulsivo…
Sento-me na minha grande janela, encosto a minha cabeça, e abandono-me…
Os raios de sol que passam entre os ramos das árvores, iluminam-me a face, secam-me as lágrimas…
Fecho os olhos…
A saudade consome-me…
Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau…
Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.
Desbaratei-te, amor, com palavras
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava –
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.
Cristina Campo
In “O Passo do Adeus”, Assírio & Alvim
Trad. José Tolentino Mendonça
Correr, correr, correr… Quem te disse para fugires?
Dói-te? Desculpa… Não queria… A sério…
Estava demasiado frio, a lágrima cristalizou no canto do olho.
O sabor a sangue encheu-lhe a boca.
A vida tem destas coisas.
Vamos a andar muito bem, e por uma razão ou outra, esbarramos violentamente num muro.
Os nossos órgãos rebentam, hemorragias internas fazem o sangue rojar dentro de nós, a dor quase nos faz desmaiar.
Mas ninguém vê, ninguém repara na nossa dor.
Ninguém vê as nossas feridas.
Podemos até morrer, mas ninguém repara.
Podemos até morrer…
