
O KURSAAL do Arq. Rafael Moneo fotografado por Spencer Tunick
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Por um grito de vida...
Há horas de tédio (coincidem quase sempre com os meus domingos à tarde). Em que pura e simplesmente não sabemos o que fazer. Ou talvez, pura e simplesmente não queremos fazer absolutamente nada. Mas mesmo assim, aborrecemo-nos, pois não encontramos nada que nos distraia. Procuramos num livro, na música, na televisão, mas nada nos tira do estado consciente em que nos encontramos, de que procuramos algo para nos distrair do tédio, destas horas vagas do nada, em que nos encontramos sozinhos, no nosso forte (quantas vezes durante a nossa semana super atarefada não desejamos umas horinhas assim, para descansar?!).
Dou por mim, num desses estados, passei horas da minha tarde, deitada na minha cama, ora passava por um estado de dormência, em que sonhos me arrancavam para os seus mundos, ora pegava num livro para me distrair um pouco, mas a sensação de aborrecimento e de “não vida” persistia… E persiste…
O silêncio da noite já mergulhou na minha casa. Recuso-me a deitar-me novamente na cama.
Procuro um pouco de vida na música. Pode ser que ela me leve a viajar um pouco.
Há horas de tédio…
Há alguns dias que quero partilhar convosco um dos momentos altos da viagem a Paris. É hábito juntarem-se saltimbancos na praça em anfiteatro ao lado do Georges Pompidou, mas é menos habitual sentar-se lá uma mulher, tocando didgeridoo imperturbavelmente, terminando cada uma das suas músicas com um olhar e um sorriso mágicos, capazes de aquecer a alma em dias de chuva intensa, apenas como forma de agradecimento da nossa presença. Pela música, mas em especial pela tranquilidade e placidez daquele olhar, aqui deixo um souvenir de Paris.
