
A PRIMAVERA »»» SARA
Hoje a Sara ofereceu-me este desenho para celebrar a Primavera. Resolvi partilha-lo aqui por três razões, a primeira porque fiquei muito contente com o presente, a segunda porque o desenho é lindo (cá para nós, a Sara tem pinta de artista) e a terceira porque a Sara merece. Obrigado Sarita pelo presente.
Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo isso ia toda a minha vida. Não é certo, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois já ri e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.
Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003
Se fosses uma fotografia, que fotografia serias?
v. LEAL BARROS
a rapariga do café não é bonita. o corpo desenha-lhe uma proporção estranha como se toda a timidez do mundo habitasse de modo preciso no elo que lhe curva as vértebras. mantém os olhos sempre baixos, em direcção ao chão, e do horizonte chega-lhe apenas o raio da bondade que lhe ilumina o sorriso. na sua quietude, leva-o de mesa em mesa por entre o amuo das crianças e a voz grossa do patrão. não me lembro de um só dia em que o não desenhasse nos lábios ou o tivesse esquecido no pátio da tristeza. a rapariga do café talvez seja uma estrela ao longe, situada no terceiro quadrante do olhar, daquelas que a lua vadia permite brilhar nas noites muito escuras. por serem raras, guardo-as com muito cuidado, até ao dia em que cinco minutos antes de partir, as vou contar e lembrar-me de como fui feliz.
v. LEAL BARROS
Jack Johnson é um ex-surfista profissional, residente no Havai, amigo de Ben Harper e Donavon Frankenreiter. Traços que ajudam a compreender quase de imediato qual o resultado da sua música. A guitarra é a companhia escolhida e as suas músicas retratam, acima de tudo, uma calma e positividade eternas. O hino perfeito para a frase "always look on the bright side of life". In Be-tween Dreams é a sucessão lógica dos álbuns anteriores. A família (Johnson é um recém-pai babado), a natureza e o simples stay cool do momento são os temas dominantes. Melodias pop que passam, aqui e ali, por cheiros blues e folk e que agradam ao ouvido sem feitiço ou grandes segredos por descobrir. In Between Dreams é a materialização em álbum de músicas de praia e fogueira.

O KILIMANJARO JÁ NÃO É ASSIM
Ontem ouvi na rádio uma notícia que me deixou bastante preocupado. O jornalista dizia que se realizava uma cimeira ambiental em Londres onde se reuniam 20 países (entre os quais Portugal) representados pelos seus ministros do ambiente e energia. Aproveitando tal reunião, associações ambientalistas fizeram circular uma fotografia do monte Kilimanjaro sem neve pela primeira vez em 10 000 anos, informou o jornalista da rádio, pretendendo chamar a atenção dos dirigentes políticos para o problema do aquecimento global e das consequentes e dramáticas alterações climáticas.
Hoje, ao abrir a página do Público, deparo-me com duas imagens de satélite do território nacional comparando a mancha verde num ano de precipitação normal com a escassa mancha verde deste ano, em que chuva nem vê-la.
Não é necessário fazer de advogado do diabo em relação às organizações ambientalistas porque sentimos diariamente que o clima anda instável e que as consequências dessa instabilidade custar-nos-ão muito caro.
Honestamente, começo realmente a preocupar-me com este problema e sinto que é forçosamente necessária uma intervenção imediata da sociedade civil no sentido de pressionar os governos, exigindo-lhes medidas e políticas que protejam o ambiente. Sabemos que não é tarefa fácil, a ver pelo comportamento autista de alguns países em relação ao protocolo de Kioto, mas se não arrumamos rapidamente a “casa” arriscamo-nos a ficar sem ela. v. LEAL BARROS

"A FAKE DALI" »»» v. LEAL BARROS
em atraso:
O 8 de Março é Dia Internacional de Luta das Mulheres. Relembra entre outras lutas, a das operárias têxteis de Nova Iorque (EUA), em 1857, em greve por melhores condições de trabalho, a mobilização de mulheres de muitos países pelo direito ao voto e a ação política autónoma das operárias russas que desencadearam a Revolução saindo às ruas contra a fome, a guerra e a tirania.
Esta data foi construída pelas mobilizações das mulheres trabalhadoras de todo o mundo ao longo do século XX.
A principal referência histórica é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910, quando Clara Zetkin propôs instaurar oficialmente um dia internacional das mulheres. É na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas em 1921 que ficou registado que "uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do dia internacional da mulher".
A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de março.
aos meus amigos:
há horas em que o silêncio da noite escorre-me pelas mãos como um suor frio carregado de uma estranha solidão. afasta-me irrecuperavelmente de tudo, até ao ponto em que a noite é toda escura e os anjos não são mais do que sombras mortas diluídas num imenso mar de negro. nessas horas em que sorvo o meu próprio veneno é difícil escutar os ecos que me lançam em forma de coração. então eles, os amigos, gritam mais alto, juntam-se em coro misturando todas as cordas para que a voz seja una, grave e forte. no fundo do tímpano entreabre-se uma porta e suavemente o estribo começa a entoar a melodia. agarro-me a cada nota com muita força e começo a construir o lençol que me leva até eles. quando o som é já tão próximo e o ar quente das suas vozes é uma brisa de amor na minha face, choro. e de lágrimas no rosto atiro-me nos seus braços pedindo-lhes desculpa pela minha imensa surdez.
v. LEAL BARROS
ONDE O SOL É UM VIOLINO DOURADO »»» BEATRIZ SEABRA
lá, onde o sol é um violino dourado que irradia música no tempo todo, onde os dias são sempre noite e as construções de cristal colorido e branco, onde as criaturas navegam no espaço numas máquinas, já envelhecidas que chiam e reclamam por repouso, na gravidade zero, o povo solicitou a presença de beatriz. sabia que ia ficar presa num cardinal e ao procurar inspiração no pano inteligente onde iria ser projectada, e porque quis silenciar os ouvidos, descobriu que afinal o povo tinha música para dar aos visitantes, sempre amáveis e hospitaleiros, como convém, apesar das mulheres serem distraídas pelos ares dos ventos vindos do norte, e pela luz do sol espelhada na ondulação do mar que lhes levanta as pupilas dos olhos, em polpa humedecida de encanto. e porque gostavam de observar as sombras dos passos dos caminhantes, já estavam muito habituados a fazer aquelas viagens nocturnas nas máquinas voadoras, velhinhas de cansaço, em busca de outros que como eles se transformavam numa outra espécie, mais pequena, talvez parecida com as nossas crianças, mas que confiavam porque viviam sempre numa atmosfera própria de bem querer. e comiam doces pelo caminho, enquanto observavam as estrelas, e quando se aproximavam dos planetas, onde iam repescar outros como eles, podiam observar as almas jovens pousadas nas nuvens a quem acenavam um sorriso pelo cruzamento. estacionaram a cambalear, a máquina voadora que tinha algumas frestas de corrente de ar, no jardim de beatriz. entrou na máquina, onde já lá estavam outros seres daquela espécie a quem perguntou se gostavam de fazer estas viagens pois pareciam já habituados a conhecer outros mundos. o condutor, que levava um chapéu de pala, deu-lhe um doce para a mão e todos lhe responderam que sim, que era divertido e ia gostar. e lá foram a percorrer o espaço ao lado das estrelas até chegar ao planeta onde o sol é um violino dourado que reluz música o tempo todo.
THE THREE AGES OF WOMAN »»» GUSTAV KLIMT
Já me viram isto! Com 5 mulheres a participarem neste blog e nenhuma se deu ao trabalho de escrever um post sobre o Dia Internacional da Mulher, nem a mais feminista, não é CECIL! Andam muito bem tratadas estas raparigas Poveiras para nem se darem ao trabalho. Um homem sofre...puxa!
Em atraso (culpa delas), mas cá vai - Feliz Dia das Mulheres!
v. LEAL BARROS

MILLION DOLLAR BABY »»» clint EASTWOOD
"A dureza não chega", assim como não chega a bondade, assim como não chega a morte... não há regras nem fórmulas para jogarmos a VIDA...
Neste filme boxe e eutanásia são temas secundários, o seu poder está definitivamente no desembrulhar assombroso da condição humana. Dou por mim a pensar se depois de Mystic River e Million Dollar Baby este senhor Eastwood não será alguma reencarnação de um clássico, arriscaria Sócrates.
Não tenho palavras perante semelhante obra de arte. Fico-me pelo agradecimento ao fantástico realizador e actor (que também compôs a música do filme) e aos actores Morgan Freeman e Hilary Swank pelas poderosas interpretações (se eu tinha dúvidas, certamente pouco razoáveis, ontém desvaneceram-se por completo). Talvez o filme da minha vida!
v. LEAL BARROS Imagem retirada do site »»» http://milliondollarbabymovie.warnerbros.com/intro.html
A tristeza cai em nós como a noite e não sabemos bem porquê. Envolve-nos com os seus braços penetrantes, tenta abafar a nossa luz.
Melancolia? Tristeza? Cansaço? Saudade?
Não sei...
Deambulo por mim... De mãos nos bolsos, olhar baixo, vou percorrendo as ruas das minhas cidades, dos meus campos, vou percorrendo as minhas paisagens desertas, geladas, as minhas planícies de flores...
"WATERLILIES" »»» claude MONET
E nós não imaginavamos que ele fosse tão grande e tão belo. Há objectos como este, verdadeiramente poderosos, capazes de nos tirar do mundo por alguns instantes... resta-nos a memória.
v. LEAL BARROS
Desde que possamos considerar este mundo uma ilusão e um fantasma, poderemos considerar tudo o que nos acontece como um sonho, coisa que fingiu ser porque dormíamos. E então nasce em nós uma indiferença subtil e profunda para com todos os desaires e desastres da vida. Os que morrem viraram uma esquina, e por isso os deixamos de ver; os que sofrem passam perante nós, se sentimos, como um pesadelo, se pensamos, como um devaneio ingrato. E o nosso próprio sofrimento não será mais do que esse nada. Neste mundo dormimos sobre o lado esquerdo e ouvimos nos sonhos a existência opressa do coração.
Mais nada… um pouco de sol, um pouco de brisa, umas árvores que emolduraram a distância, o desejo de ser feliz, a mágoa de os dias passarem, a ciência sempre incerta e a verdade sempre por descobrir… Mais nada, mais nada… Sim, mais nada…
Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"
Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003
Poderosamente frágil, estou mergulhada no mar da saudade. Peixes de escamas duras, numa atitude agridoce, roçam a minha pele.
Envolve-me a nostalgia.
Mas mesmo longe estás sempre no meu momento presente. Tatuado em todas as minhas células.
Fazes parte de tudo o que eu sou.
claudia NEVES