Um pouco mais vaidoso,
O POVO É BOM TIPO
Nós, que medimos a morte,
não entramos no roldão desassossegando
o mundo. Alimentamo-nos de seres
menores
Bernardo Soares
v. LEAL BARROS
escrevo-me no regaço obtuso do olhar que grita por dentro...
na silhueta de um raio de luz, obscuro de vidas...
escrevo-me na objectiva intensa do registo de outrém....
na incoerência absurda de uma alvorada rasgada em sorrisos...
escrevo-me....
escrevo-me nesses pedaços de ti que me compõe em essências...
na textura plácida da tua fronte impregnada de sentidos...
então sou partitura...
plano, na ausência de riscos de odores salgados...
e re-escrevo-me...
subtraio-me dos grilhões desse regaço obtuso...
toco a silhueta de um raio de luz...
e sorrio...
na imaturidade coerente desse olhar
"que arde sem se ver"....mas se sente!anuXca
Sing a song of Esso
Sing a song of Esso
The boss is in the counting house
Esperando contribuir para algo,
O Povo é Bom Tipo
FILHOS DE NARCISO
Desde muito cedo que o homem se apercebeu do poder da imagem. A consciência da morte e consequente culto verificado em todas as sociedades revelou-se, como nos diz Lewis Mumford numa “expressão de fascinação de si mesmo”. A capacidade de interpretar as imagens do quotidiano e as poderosas imagens de fantasia dos sonhos criaram nele uma espécie de necessidade em selar momentos, eternizando-os de algum modo. Verificamos que, desde as cenas do quotidiano paleolítico de Lascaux ou Altamira até à sumptuosidade da arquitectura funerária egípcia, existe uma intenção forte de apropriação da imagem enquanto tal, ou enquanto forma, como meio de atingir o belo e o imortal. A busca da eternização da memória pela arte é muito mais do que a criação ou o registo da beleza, ela é a constatação da natureza narcísica da própria condição humana. Como filho de Narciso, ou enquanto Narciso ele mesmo, o homem necessita intrinsecamente do perpétuo, marcando de forma mais ou menos subtil o rasto do seu percurso. Aceitemos portanto enquanto espécie, o egoísmo como elemento fundamental e primordial da nossa natureza sem dramatismos ou falsos moralismos.
CECIL
Sem mais, desejando Boas Vindas às novas Habitantes,
O POVO É BOM TIPO
Eu falo só na minha solidão, respondo a mim mesmo;
só eu fiquei de pé, sem nenhum apoio.
Tive um sonho do mundo de cima.
Estava no zénite, no meio do céu estava,
e agora estou doente, tenho doente o coração.
Estava perto do Pai do Céu,
estava muito perto da Mãe do Céu,
estavam perto os nossos pais,
noutra terra estava eu.
Ingénuo foi o meu coração: tinha de voltar outra vez
a esta terra.
Araucanos (Chile)
in "Rosa do Mundo"
trad. José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim
Lisboa, 2001
há poemas assim tão demasiadamente humanos. são capazes de levar-nos às lágrimas. CANÇÃO
Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.
Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não poderemos regressar tão cedo.
O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.
Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos passaportes não florescem.
Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira,
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?
Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.
Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: "Eles têm de morrer!"
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no Seu pensamento.
Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete,
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não eram judeus alemães.
Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés de distância.
Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana.
Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma delas era nossa.
Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as carruagens estavam cheias.
Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair:
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro,
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e para ti.
W.H. Auden
in "Rosa do Mundo"
trad. Jorge Emílio
Assírio & Alvim
Lisboa, 2001
v. LEAL BARROS
ANTIQUE
Jean-Arthur Rimbaud
in "Iluminações"
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária. como não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
Herberto Helder
in "Ou o Poema Contínuo"
Assírio & Alvim
Lisboa, 2004
v. LEAL BARROS
pelas vítimas do maremoto,