Voltei a estancar na discussão...


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Voltei a estancar na discussão sobre a opressão. Coisa que me assombra e persegue-me como fantasmas. Não importa o quanto ou o quê eu leia, todos os caminhos parecem abrir brechas para o velho tema sempre tão atual na minha cabeça.

Domingo à noite, um calor insuportável e fomos a uma cafeteria nos distrair e conversar amenidades. Impossível. Meu companheiro vive mais um processo de greve da sua categoria. Começou a me contar os fatos da semana, de como estavam lidando com as negociações e de repente já estávamos expondo idéias de como a opressão nos sonda, nos espreita, ela surge como para lembrar que é inadmissível sua presença tão constante no mundo.

Conversamos sobre a Macabéa, personagem fantástica do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector e depois acabei me lembrando de Reflexos do baile, do Antonio Callado. Veio-me à cabeça um fragmento específico de um dos bilhetes e eu o repeti.

De volta à casa, vejo o post escreves poesias, tu do José Alexandre. Penso: isso só pode ser provocação!
Sorrio sozinha do jogo caleidoscópico que a vida traça.

Percorri o itinerário político até chegar ao literário (que também é uma forma política de ver o mundo) e notei como são raras as vezes em que o homem tem nas mãos a possibilidade concreta de efetuar mudanças.

As classes médias de um modo geral, e mais especificamente no Brasil, nunca fizeram a verdadeira transformação, sempre foi uma pequena burguesia que se associava a ela para executar seus interesses e depois tudo voltava ao mesmo ponto.

A revolução no meu país não foi feita com a consciência do papel das classes médias numa sociedade. Sempre precisamos de porta-vozes, o discurso nunca foi construído de baixo para cima, sempre alguém surge para dizer o “dever a ser”.

O mesmo com a nossa literatura. É sempre uma burguesia se apropriando de um discurso para falar a respeito de... são os outros que contam a nossa história.

Macabéa é uma mulher sem voz, despreparada para a vida, alijada da sociedade a partir da primeira célula – o exercício da linguagem como expressão.

No livro de Callado, vemos jovens sendo massacrados por um ideal que eles nem mesmo sabiam ao certo o significado, o peso, a responsabilidade... entraram na luta armada de maneira romanceada e só descobriram o que era a opressão quando viveram na carne a não-ficção da dor.

Foi só aí que o outro passou a ser eu. Quando a experiência da opressão pesou nos ombros de quem defendia a liberdade.
Quando falar da fome atingiu a plenitude de significado, porque passou a ser não um discurso sobre a mesma, mas a própria experiência.

Por vezes a barriga cheia nos impede de entender o outro.

Claro que não essa é a discussão. Não desejo que se morra para entender o sentido da morte. O homem é capaz de transmutar e lançar-se no mundo dos sentidos e apreendê-los e assim poder reproduzir um discurso coerente, mas os que vivem cotidianamente tais dramas não têm vez nem voz e são eles (infelizmente) a grande maioria no meu país.

O debate sobre os discursos competentes ainda é um problema real na política e na literatura, mas eu sonho com o dia em que a democracia atinja as Artes, popularizando-a, porque de banalidades estamos todos cheios.


Dirceu: Eu sou um traidor convicto mas pretendo que a traição dê frutos e aqui não dá. Não dá mesmo. Só se em vez de gente eu fosse um boi, uma manada de búfalos, um churrasco. Você me fala em armas, mais armas, mas eu preciso de costelas, patinho, acém, chã-de-dentro e mocotó. Tenho uma grosa de guerreiros e até um santo ou dois mas não conseguimos vencer a mansa resignação dos que não comem. A menos que rebente uma guerra não vejo quando é que teu trem lacrado vai entrar apitando para desovar na plataforma o traidor. Não pense que estou lambendo minha própria ferida não que eu tenho o estômago forte e faço três refeições por dia. O medo é que meu fedor seja sentido pelos outros antes que eu me afaste e me declare.

Amália: É o cancioneiro pátrio, é o Tabuleiro da Baiana, Os Quindins de Iaiá, a Lata de Leite, a Receita de Vatapá, o Doce de Coco, é o matar a fome erigido em cúpula da consumação amorosa, a velha cópula também conhecida como foda, exempli gratia, vou comer ela, papei ela todinha, é, do Oiapoque ao Chuí, o lamento de todos os Estados, o hino máximo, Mamãe eu Quero Mamar, é a fome que começa no bico do seio materno e continua vida afora por todos os bicos de seio que passem distraídos à altura da nossa boca, é a confusão ugolinoedípica, é a carne de vaca e de fêmea, é a sardinha e D. Pero Fernandes. Negócio do Roldão é isso aí, paixão com ele vira compaixão. Não pode ver sofrimentos alheio que quer logo rachar. Nossa história está cheia de bailes proféticos e desta vez o povo, que não suja prato porque não tem com que, vai ser convidado a quebrar e não a lavar a louça. Comeremos com a mão. Combateremos no escuro.

Antonio Callado, Reflexos do baile.

luciana MELO


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