Entre Cunningham e Woolf


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Sobre Michael Cunningham e Virginia Woolf dedicar-me-ei com mais atenção num post futuro, logo que termine o ciclo de leituras que ando a fazer e o tempo me permita debruçar sobre a questão como pretendo, no entanto, não consigo deixar de partilhar aqui algumas impressões que me têm assolado o pensamento ultimamente. Há, quer em “As Horas” de Cunningham quer em “As Ondas” e “Mrs. Dalloway” de Woolf uma espécie de força propulsora nos personagens que protagonizam a acção que os leva a abraçar intensamente a vida apesar dos dramas que os vão consumindo. Isso verifica-se de forma clara, em Clarissa Dalloway (Mrs. Dalloway) e em Clarissa Vaughan (As Horas), mas talvez o personagem mais enigmático de todos seja mesmo Laura Brown (As Horas), é nela que a ambiguidade entre tragédia e comédia se manifesta de forma mais notória. Tudo isto me tem lembrado muito do último filme de Woody Allen, “Melissa e Melissa”, pouco importa se a vida é interpretada como uma comédia ou uma tragédia, o que realmente sobressai são as “horas” em que sentimos que tudo foi intensamente verdadeiro. É caso para dizer que isto de viver vale realmente a pena.

Sim, pensa Clarissa, já é tempo do dia acabar. Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Michael Cunningham, As Horas
v. LEAL BARROS


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