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Das últimas vezes que fui à livraria aqui no Brasil, fiquei bastante satisfeita. E não estou falando de boas livrarias, mas dessas que parecem lojas de conveniências, grandes cadeias que oferecem best-sellers em todas as suas prateleiras.

Depois de um bom tempo desiludida com o mercado editorial brasileiro, volto a me orgulhar de vasculhar prateleiras e ver alguns autores importantes reeditados.

Há alguns anos, a Rocco relançou toda a obra de Autran Dourado, escritor mineiro talentosíssimo cujos livros ofereceram-me uma nova visão e entendimento da literatura.

Agora ficou mais fácil achar o Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio. Vi um Lúcio Cardoso perdido entre um e outro autor e um tímido exemplar do Campos de Carvalho, Morangos Mofados do Caio Fernando Abreu. Sem contar que tem uma edição ma-ra-vi-lho-sa da deusa Clarice Lispector – um livro cheio de fotos não menos maravilhosas da escritora em diversas fases da vida. Cada página contém um fragmento de texto dela emoldurando a foto.

Saindo do território nacional, vi para meu deleite completo a obra completa do Tchekhov.
A Cosacnaify lançou duas seleções de contos: os de Virgínia Woolf e os de Katherine Mansfield, incluindo fotos e trechos de seu diário comentando os contos. Ai, que dá uma vontade de cometer uma insanidade econômica e passar o resto do ano comendo livros.

Mas isso tudo é pretexto para apresentar a vocês um escritor raro, comprometido com a palavra e o ofício, artesão incansável da matéria humana, Osman Lins.

Osman é essa espécie de escritor que ficou fora do grande cânone literário. Pouco comentado, pouco lido, pouco divulgado nas escolas, enfim, uma grande injustiça do mundo das letras.

Ano passado, ele completaria, se vivo, 80 anos. Em decorrência da data, tivemos homenagens muito localizadas no âmbito universitário, mas o que de alguma forma ainda mantém sua contribuição absolutamente inovadora para a literatura brasileira.

Osman morreu aos 56 anos, vítima de câncer e deixando-nos uma vasta bibliografia entre contos, romances, novelas, ensaios e textos teatrais.
Antes de falecer, ele trabalhava no que viria a ser o seu quinto romance, A cabeça levada à prêmio, mas o livro ficou inacabado. Azar nosso.

Osman Lins é o tipo de escritor que faz uma devassa na vida do leitor. Ele divide os tempos, traçando um percurso de amor à literatura e à vida.

Eu poderia ficar horas falando do homem e do visionário que ambicionou uma cosmogonia para o universo literário, mas deixo isso a cargo da curiosidade de vocês.

Para aproveitar o post dedicado aos arquitetos, cito apenas o Avalovara . Somente este livro daria à Sherazade mais mil e uma noites para encantar o seu sultão.

Osman parte de um mito da cultura hindu, o pássaro Avalovara, para construir seu projeto arquitetônico de uma escrita inovadora.
Osman estudou muito para criar uma metáfora da história da humanidade: remexeu plantas de antigas catedrais, estudou a técnica dos vitrais e dos mosaicos, executou matematicamente uma estrutura narrativa que apesar do formato ‘cartesiano’, nunca, em nenhum momento perde a poesia. Bebeu nos cantares de Salomão para construir uma das prosas poéticas mais delicadas a cerca do amor carnal, mergulhou nas profundezas da opressão social e individual, na danação de criar e leu as escrituras e mitologias para edificar a cidade dos seus sonhos, sua Jerusalém prometida.

Falou sobre a busca da liberdade num universo opressor, remontando o cenário de Pompéia até os dias mais duros de nossa ditadura militar, colocou na mão de um escravo a responsabilidade de libertar a alma humana da inveja e da cobiça.

Evocou divindades para afirmar que a obra humana é sublime porque nasce contaminada em sua gênese. Enfim, Osman Lins foi uma espécie de Deus, criou seu próprio universo, fez nascer a luz sem negar a existência das trevas, mais do que isso, ele admitiu que “os começos jazem das sombras”.

Osman Lins não foi indiferente ao complexo jogo da vida:
... A indiferença do escritor é adequada à sua presumível elevação de espírito? Para defender a unidade, o nível e a pureza de um projeto criador, mesmo que seja um projeto regulado pela ambição de ampliar a área do visível, tem-se o privilégio da indiferença? Preciso ainda saber se na verdade existe a indiferença: se não é - e só isto - um disfarce da cumplicidade. Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim - de nós. Pode o espírito a tudo sobrepor-se? Posso manter-me limpo, não-infeccionado dentro das tripas do cão? Ouço: 'A indiferença reflete um acordo, tácito e dúbio, com os excrementos' Não, não serei indiferente.
LINS, Osman. Avalovara, 1973.

luciana MELO


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