MISSIVAS

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V.,
O que eu poderia esperar de você a não ser o melhor? Seu amor, paciência, generosidade... obrigada por não me julgar, minha querida, porque eu já faço bem o papel da juíza, minhas sentenças são severas demais, mas acredite, eu já posso soprar minhas feridas sem lambê-las.

Quando você me falou sobre as portas de seu castelo, lembrei-me imediatamente de sua mãe. Certa vez ela nos preparou um chá delicioso, muitos biscoitos e geléias. Você ficou calada a maior parte do tempo, olhos baixos e úmidos e quando finalmente resolveu falar foi pra pedir-lhe que me contasse a história tantas vezes repetidas a você quando criança.

Este foi o dia em que fiquei sabendo que seu pai tinha sido promovido e iria ocupar um cargo na França. Lembra V.? Tudo ainda está tão nítido na minha memória!

“Era uma vez uma ave muito rara, de plumagem exuberante. Todos os dias ela ia ao jardim da casa de Annie.
A menina observava-o da janela e já ensaiava uma aproximação. A cada dia, ela chegava mais e mais perto do bichinho até que teve uma idéia: foi à cozinha, esfarelou a casca do pão na palma de sua mão.
O pássaro vinha rápido, bicava os farelos e depois voava. Isso repetiu-se por semanas até que adquirida a confiança, ele pousou nas mãos de Annie para se alimentar sem pressa ou receios.
Ele voltava todos os dias e ambos deleitavam-se de prazer.
Um dia, a menina resolveu prolongar o encontro e assim que o pássaro pousou, ela fechou as mãos, prendendo-o e acariciando a sua plumagem.
Apesar de não ter se machucado, o pássaro ficou muito assustado e assim que Annie abriu as mãos, ele voou alto, muito alto.
No dia seguinte, ela foi esperá-lo no jardim, como sempre fazia, mas o pássaro nunca mais voltou.”

É isso o amor, não é V.? Um pássaro livre que ficará para sempre em nossas vidas se soubermos respeitar suas asas.

Todo esse tempo em que silenciei, V., foi para tomar coragem de abrir minhas mãos e libertar o pássaro que havia nelas. Resumindo: minha love story chegou ao fim. Tudo ainda é muito novo e dói terrivelmente, minha querida, ao mesmo tempo, nunca houve tanta serenidade nos meus movimentos.

Preciso te contar algo extraordinário, V! ando compulsiva com o lápis, tenho escrito qualquer coisa em qualquer pedaço de papel. Não existe muito nexo no que escrevo, mas tem sido uma descoberta deliciosamente egoísta.
Eis um mundo ao qual só a mim pertence!

Estive pensando em ir ao seu encontro.
Há quantos anos não nos vemos, V.? Seis, talvez sete? Meu Deus, minha Teresa fará quatro anos e é um absurdo que vocês não se conheçam!
Veja a sua agenda e me diga se posso chegar em Paris junto com a primavera.

Saudades,

A.

Luciana MELO


Inquérito

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Pergunta-se à exma. População:
- o site funciona correctamente, quer ao nível da visualização ou codificação de caracteres, quer ao nível de comentários?
- qual o template que preferem, o actual ou o anterior?
- preferem recuperar o sistema de comentários da Haloscan apesar do seu mau funcionamento, ou preferem perdê-los e colocar o sistema da Blogger que funciona correctamente?
- que sugestões deixam para melhorar o funcionamento da página?


A Infinita Prateleira das Metáforas #029

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Alguém pensa que é sorte ter nascido?
Apresso-me a informar a esse homem ou a essa mulher que é igual sorte viver ou morrer, eu sei.

Morro com aquele que vai morrer e nasço com aquele está a nascer, não estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas,
E examino os mais variados objectos, nenhum igual ao outro e todos bons,
Boa a terra e boas as estrelas e bons os seus complementos.

Eu não um mundo nem o complemento de um mundo,
Sou o camarada e o companheiro das pessoas, todas tão imortais e insondáveis como eu próprio,
(Elas nem sabem como são imortais, mas eu sei.)

Cada espécie para si própria, para a minha o macho e a fêmea,
Para mim os que foram rapazes e amam as mulheres,
Para mim o homem altivo que sente a dor do desdém,
Para mim a bem amada e a solteirona, para mim as mães e as mães das mães,
Para mim os lábios que sorriram, os olhos que derramaram lágrimas,
Para mim as crianças e aqueles que as procriam.

Despe-te! Para mim não és culpado, nem decrépito, nem banido,
Vejo-te através do pano fino ou do algodão,
E aproximo-me, tenaz, ávido, incansável e ninguém pode afastar-me de si.


Walt Whitman

In “Canto de mim mesmo”, Assírio & Alvim
Trad. José Agostinho Baptista


Problemas técnicos

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O Povo É Bom Tipo pede desculpa pelos problemas de codificação de texto acontecidos nos últimos dias. Já foram testados novos templates, mas o problema persiste. Pensa-se que poderá ser algum problema ao nível da plataforma de publicação da Blogger.
Tentaremos, o mais rapidamente possível solucionar o problema, agradecendo desde já a compreensão dos leitores.


O Povo é Bom Tipo #021

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"Dream" »» v. LEAL BARROS

Candyland »» CocoRosie


ARTILHARIA

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Um punhal atravessa minha garganta.
Uma sufocação me toma de assalto, a vista escurece e é como morrer.
Tento falar, não consigo.
Tenho a boca repleta de cacos de vidro.
Sinto ânsia, náusea...vomito.
Vomito flores de cristal.
São bonitas, não resta dúvida, mas não têm alma, não têm cor, não perfumam.
A fragilidade dessas flores é bruta: não suporta a dor nem o grito, ainda que abafado e rouco.
Espatifam-se em vão. São incapazes de brotar.
Quero de volta as pétalas, mesmo que elas feneçam.
Trocaria, sem hesitação, o punhal que me cala pelos espinhos. Mesmo ferindo o verbo, eles resistem à vida.

luciana MELO


Duas Imagens de...

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"Some Thames" »» Roni HORN


MINHA MÚSICA

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Ouve! O que escrevo é música de câmara. Uma música belíssima que nasce das minhas profundezas. Lá onde tudo é sombra e criação incontida, irrepresável.

Busco no perfume da noite o alimento da minha regeneração. Respiro fundo e retiro a energia vital que embala o sono das palavras. Enquanto elas dormem, faço vigília e espero a melodia tomar forma, então, escrevo e o que escrevo não é para ser lido.

Minha palavra é uma orquestração muda, é música silenciosa.

luciana MELO


Talvez sentado na janela

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Talvez da janela questionasse, ainda sem ter percebido, se ao fundo os olhos conseguiam alguma resposta. Há anos que não olhava para trás, tinha medo de olhar para trás e sempre que o fazia duas árvores tombavam violentamente na terra e diziam-lhe que não. Duas a duas caíram, duas a duas varreram o caminho e mataram as sombras. Tudo até que o horizonte fosse em linha recta e a água pudesse subir amolecendo os pés da casa.
Á espera e sem olhar para trás - ainda tem medo de olhar para trás - leva os joelhos ao queixo e as mãos aos tornozelos talvez sentado na janela. A água vai cercando e derretendo os pés da casa. Vindas de trás, duas a duas como jangadas afiadas, vê as árvores derrubadas ultrapassarem-no pela esquerda e pela direita, duas a duas flutuando em direcção ao futuro.
Não olha para trás - ainda tem medo de olhar para trás. Em baixo, os pés moles da casa. Na frente como velas em bolina, flutuam pela esquerda e pela direita, duas a duas, as copas ao longe, as raízes rasgando a parede branca. Talvez sentado na janela leve os joelhos ao queixo e as mãos aos tornozelos. Tudo, assim, até que nasça o silêncio.
v. LEAL BARROS


Apontamento

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Ontem vi um poste vestido de pássaros que me encantou e um ser humano vestido de laranja-forte que me feriu... duas vezes.
v. LEAL BARROS



"who in his plays uncovers the precipice under everyday prattle and forces entry into oppression's closed rooms"



Academia Sueca, 13.10.2005




«Nascido em 1930, Harold Pinter começou por ser actor (com o nome David Baron) e em 1957 escreveu a sua primeira peça, THE ROOM. Autor fundamental do teatro contemporâneo, encenou e representou em algumas das suas mais de trinta peças, que foram traduzidas e encenadas por todo o mundo. Escreveu também para rádio, televisão e cinema, onde é difícil esquecer a colaboração com Joseph Losey. Recebeu já diversos prémios e distinções: recentemente, o título de Companion of Honour da Rainha. O seu site é o www.haroldpinter.org.
Os Artistas Unidos realizaram um ciclo com a obra de Harold Pinter durante as temporadas de 2001/2/3. Na ocasião a editora Relógio d´Água publicou dois volumes com as peças mais importantes do autor.

Não sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram.
Harold Pinter

As personagens de Pinter exprimem exactamente aquilo que lhes vem à mente e muitas vezes emerge directamente do inconsciente. Pode acontecer que isso nada tenha a ver com a acção ou com o que acaba de dizer a outra personagem. Para dizer a verdade, não há diálogo.As personagens de Pinter só se revelam aos poucos e de uma maneira incompleta: esse é o trabalho do actor.
Mervyn Jones

"As suas palavras não dizem o que dizem, dizem mais. O enigma é muito interessante porque está bem perto da verdade da vida."
Claude Régy àcerca de Harold Pinter

"O teatro de Harold Pinter revela um universo singular, cómico e aterrador, feito de sub-entendidos, mal-entendidos ou puros equívocos. Nele observa-se, como se fosse ao microscópio, personagens que vegetam confusamente, de quem quase nada se sabe e que, de repente, explode num confronto em que as palavras são armas mortais. Estamos no reino do falso para se atingir uma verdade que é ainda mais falsa. As perguntas que se colocam não são aquelas que nos vêm à cabeça e a resposta, ou a recusa de responder limita-se a aumentar o abismo da incompreensão. O pudor torna-se violência, o sorriso ameaça, o desejo impotência, a vitória desfaz-se."
Eric Kahane
texto e foto do site Artistas Unidos


PARABÉNS aP!

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"Bathing Women" »» Joan MIRÓ

PARABÉNS alves PEDRO!


Outra Imagem de...

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"Kitchen", 2001 »» Hannah STARKEY


Agradecimento

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Quero agradecer aos meus companheiros e companheiras aqui da casa, ao nosso Povo, os posts que têm colocado, cuja pertinência e interesse têm levado a discutir os assuntos de forma livre e espontânea, convivendo de forma saudável, mesmo quando as opiniões não se encaixam na totalidade. A Luciana escreveu num dos comentários: ...o bom nesta casa é que a diversidade de opiniões convive e isso é quase uma quimera nos dias de hoje, e eu não poderia estar mais de acordo. Obrigado por interiorizarem de forma tão pronta e participativa o espírito deste blogue. Que assim continue...
v. LEAL BARROS


Voltei a estancar na discussão...

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Voltei a estancar na discussão sobre a opressão. Coisa que me assombra e persegue-me como fantasmas. Não importa o quanto ou o quê eu leia, todos os caminhos parecem abrir brechas para o velho tema sempre tão atual na minha cabeça.

Domingo à noite, um calor insuportável e fomos a uma cafeteria nos distrair e conversar amenidades. Impossível. Meu companheiro vive mais um processo de greve da sua categoria. Começou a me contar os fatos da semana, de como estavam lidando com as negociações e de repente já estávamos expondo idéias de como a opressão nos sonda, nos espreita, ela surge como para lembrar que é inadmissível sua presença tão constante no mundo.

Conversamos sobre a Macabéa, personagem fantástica do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector e depois acabei me lembrando de Reflexos do baile, do Antonio Callado. Veio-me à cabeça um fragmento específico de um dos bilhetes e eu o repeti.

De volta à casa, vejo o post escreves poesias, tu do José Alexandre. Penso: isso só pode ser provocação!
Sorrio sozinha do jogo caleidoscópico que a vida traça.

Percorri o itinerário político até chegar ao literário (que também é uma forma política de ver o mundo) e notei como são raras as vezes em que o homem tem nas mãos a possibilidade concreta de efetuar mudanças.

As classes médias de um modo geral, e mais especificamente no Brasil, nunca fizeram a verdadeira transformação, sempre foi uma pequena burguesia que se associava a ela para executar seus interesses e depois tudo voltava ao mesmo ponto.

A revolução no meu país não foi feita com a consciência do papel das classes médias numa sociedade. Sempre precisamos de porta-vozes, o discurso nunca foi construído de baixo para cima, sempre alguém surge para dizer o “dever a ser”.

O mesmo com a nossa literatura. É sempre uma burguesia se apropriando de um discurso para falar a respeito de... são os outros que contam a nossa história.

Macabéa é uma mulher sem voz, despreparada para a vida, alijada da sociedade a partir da primeira célula – o exercício da linguagem como expressão.

No livro de Callado, vemos jovens sendo massacrados por um ideal que eles nem mesmo sabiam ao certo o significado, o peso, a responsabilidade... entraram na luta armada de maneira romanceada e só descobriram o que era a opressão quando viveram na carne a não-ficção da dor.

Foi só aí que o outro passou a ser eu. Quando a experiência da opressão pesou nos ombros de quem defendia a liberdade.
Quando falar da fome atingiu a plenitude de significado, porque passou a ser não um discurso sobre a mesma, mas a própria experiência.

Por vezes a barriga cheia nos impede de entender o outro.

Claro que não essa é a discussão. Não desejo que se morra para entender o sentido da morte. O homem é capaz de transmutar e lançar-se no mundo dos sentidos e apreendê-los e assim poder reproduzir um discurso coerente, mas os que vivem cotidianamente tais dramas não têm vez nem voz e são eles (infelizmente) a grande maioria no meu país.

O debate sobre os discursos competentes ainda é um problema real na política e na literatura, mas eu sonho com o dia em que a democracia atinja as Artes, popularizando-a, porque de banalidades estamos todos cheios.


Dirceu: Eu sou um traidor convicto mas pretendo que a traição dê frutos e aqui não dá. Não dá mesmo. Só se em vez de gente eu fosse um boi, uma manada de búfalos, um churrasco. Você me fala em armas, mais armas, mas eu preciso de costelas, patinho, acém, chã-de-dentro e mocotó. Tenho uma grosa de guerreiros e até um santo ou dois mas não conseguimos vencer a mansa resignação dos que não comem. A menos que rebente uma guerra não vejo quando é que teu trem lacrado vai entrar apitando para desovar na plataforma o traidor. Não pense que estou lambendo minha própria ferida não que eu tenho o estômago forte e faço três refeições por dia. O medo é que meu fedor seja sentido pelos outros antes que eu me afaste e me declare.

Amália: É o cancioneiro pátrio, é o Tabuleiro da Baiana, Os Quindins de Iaiá, a Lata de Leite, a Receita de Vatapá, o Doce de Coco, é o matar a fome erigido em cúpula da consumação amorosa, a velha cópula também conhecida como foda, exempli gratia, vou comer ela, papei ela todinha, é, do Oiapoque ao Chuí, o lamento de todos os Estados, o hino máximo, Mamãe eu Quero Mamar, é a fome que começa no bico do seio materno e continua vida afora por todos os bicos de seio que passem distraídos à altura da nossa boca, é a confusão ugolinoedípica, é a carne de vaca e de fêmea, é a sardinha e D. Pero Fernandes. Negócio do Roldão é isso aí, paixão com ele vira compaixão. Não pode ver sofrimentos alheio que quer logo rachar. Nossa história está cheia de bailes proféticos e desta vez o povo, que não suja prato porque não tem com que, vai ser convidado a quebrar e não a lavar a louça. Comeremos com a mão. Combateremos no escuro.

Antonio Callado, Reflexos do baile.

luciana MELO


Quatro imagens de...

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"The Divers" »» Aaron SISKIND


A Esperança em Círculo

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É necessário algum tempo para absorvermos a ideia de que todos aqueles zombies, todos aqueles fantasmas somos nós.

Alice”, primeira longa metragem de Marco Martins não é um filme fácil. Na cadência lenta das suas imagens poderosas somos testemunhas oculares do desespero de um casal que vê desaparecida a filha. E depois a agonia da esperança, como um círculo, a dizer-lhes que talvez seja amanhã o reencontro, naquela rua ou naquele comboio, ou no outro dia, ou no dia a seguir, ou 193 dias depois, a esperança reciclada diariamente pelo amor. Assistimos a tudo e a dor é-nos insuportável durante 102 minutos e perguntamo-nos se teríamos coragem de esperar um dia, outro dia, o dia a seguir, 193 dias… talvez por amor como muitos Mários e muitas Luísas, talvez só mesmo por amor.
Livres da bofetada do cinema o drama é-nos estranho, longínquo, e somos todos aqueles fantasmas que correm de casa para o trabalho e do trabalho para casa, agasalhados sobre si próprios, como se a cidade terminasse onde termina a pele. “Alice” não é apenas um drama familiar, é a solidão incongruente dos grandes centros urbanos, é a vida que passa diariamente ao lado e temos medo de abraçar, é cruzar um homem que chora e tão pouco o ver.
Com um desempenho extraordinário de Nuno Lopes e Beatriz Batarda, som e fotografia irrepreensíveis, uma banda sonora do melhor que a casa tem (Bernardo Sassetti) é imperdoável não ver este filme. Ah! E é português…
v. LEAL BARROS




A Infinita Prateleira das Metáforas #028

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Fui

Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.
E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.
Konstandinos Kavafis
in "Poemas e Prosas"
Relógio D'Água
trad. Joaquim Manuel Magalhães
e Nikos Pratsinis


Da Blogosfera

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Vale a pena ler este post do Eduardo Pitta no da Literatura e seguir viagem até ao Esplanar, do João Pedro George, para uma leitura detalhada de "Couves & Alforrecas". Preparem-se que é forte!
E agora a sério, não prescindam de "Pensar no intervalo do movimento" do João Paulo Sousa, no Da Literatura também.
v. LEAL BARROS


Entre Cunningham e Woolf

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Sobre Michael Cunningham e Virginia Woolf dedicar-me-ei com mais atenção num post futuro, logo que termine o ciclo de leituras que ando a fazer e o tempo me permita debruçar sobre a questão como pretendo, no entanto, não consigo deixar de partilhar aqui algumas impressões que me têm assolado o pensamento ultimamente. Há, quer em “As Horas” de Cunningham quer em “As Ondas” e “Mrs. Dalloway” de Woolf uma espécie de força propulsora nos personagens que protagonizam a acção que os leva a abraçar intensamente a vida apesar dos dramas que os vão consumindo. Isso verifica-se de forma clara, em Clarissa Dalloway (Mrs. Dalloway) e em Clarissa Vaughan (As Horas), mas talvez o personagem mais enigmático de todos seja mesmo Laura Brown (As Horas), é nela que a ambiguidade entre tragédia e comédia se manifesta de forma mais notória. Tudo isto me tem lembrado muito do último filme de Woody Allen, “Melissa e Melissa”, pouco importa se a vida é interpretada como uma comédia ou uma tragédia, o que realmente sobressai são as “horas” em que sentimos que tudo foi intensamente verdadeiro. É caso para dizer que isto de viver vale realmente a pena.

Sim, pensa Clarissa, já é tempo do dia acabar. Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Michael Cunningham, As Horas
v. LEAL BARROS


Uma Imagem de...

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"Nadador", 1995 »» vari CARAMÉS


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Das últimas vezes que fui à livraria aqui no Brasil, fiquei bastante satisfeita. E não estou falando de boas livrarias, mas dessas que parecem lojas de conveniências, grandes cadeias que oferecem best-sellers em todas as suas prateleiras.

Depois de um bom tempo desiludida com o mercado editorial brasileiro, volto a me orgulhar de vasculhar prateleiras e ver alguns autores importantes reeditados.

Há alguns anos, a Rocco relançou toda a obra de Autran Dourado, escritor mineiro talentosíssimo cujos livros ofereceram-me uma nova visão e entendimento da literatura.

Agora ficou mais fácil achar o Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio. Vi um Lúcio Cardoso perdido entre um e outro autor e um tímido exemplar do Campos de Carvalho, Morangos Mofados do Caio Fernando Abreu. Sem contar que tem uma edição ma-ra-vi-lho-sa da deusa Clarice Lispector – um livro cheio de fotos não menos maravilhosas da escritora em diversas fases da vida. Cada página contém um fragmento de texto dela emoldurando a foto.

Saindo do território nacional, vi para meu deleite completo a obra completa do Tchekhov.
A Cosacnaify lançou duas seleções de contos: os de Virgínia Woolf e os de Katherine Mansfield, incluindo fotos e trechos de seu diário comentando os contos. Ai, que dá uma vontade de cometer uma insanidade econômica e passar o resto do ano comendo livros.

Mas isso tudo é pretexto para apresentar a vocês um escritor raro, comprometido com a palavra e o ofício, artesão incansável da matéria humana, Osman Lins.

Osman é essa espécie de escritor que ficou fora do grande cânone literário. Pouco comentado, pouco lido, pouco divulgado nas escolas, enfim, uma grande injustiça do mundo das letras.

Ano passado, ele completaria, se vivo, 80 anos. Em decorrência da data, tivemos homenagens muito localizadas no âmbito universitário, mas o que de alguma forma ainda mantém sua contribuição absolutamente inovadora para a literatura brasileira.

Osman morreu aos 56 anos, vítima de câncer e deixando-nos uma vasta bibliografia entre contos, romances, novelas, ensaios e textos teatrais.
Antes de falecer, ele trabalhava no que viria a ser o seu quinto romance, A cabeça levada à prêmio, mas o livro ficou inacabado. Azar nosso.

Osman Lins é o tipo de escritor que faz uma devassa na vida do leitor. Ele divide os tempos, traçando um percurso de amor à literatura e à vida.

Eu poderia ficar horas falando do homem e do visionário que ambicionou uma cosmogonia para o universo literário, mas deixo isso a cargo da curiosidade de vocês.

Para aproveitar o post dedicado aos arquitetos, cito apenas o Avalovara . Somente este livro daria à Sherazade mais mil e uma noites para encantar o seu sultão.

Osman parte de um mito da cultura hindu, o pássaro Avalovara, para construir seu projeto arquitetônico de uma escrita inovadora.
Osman estudou muito para criar uma metáfora da história da humanidade: remexeu plantas de antigas catedrais, estudou a técnica dos vitrais e dos mosaicos, executou matematicamente uma estrutura narrativa que apesar do formato ‘cartesiano’, nunca, em nenhum momento perde a poesia. Bebeu nos cantares de Salomão para construir uma das prosas poéticas mais delicadas a cerca do amor carnal, mergulhou nas profundezas da opressão social e individual, na danação de criar e leu as escrituras e mitologias para edificar a cidade dos seus sonhos, sua Jerusalém prometida.

Falou sobre a busca da liberdade num universo opressor, remontando o cenário de Pompéia até os dias mais duros de nossa ditadura militar, colocou na mão de um escravo a responsabilidade de libertar a alma humana da inveja e da cobiça.

Evocou divindades para afirmar que a obra humana é sublime porque nasce contaminada em sua gênese. Enfim, Osman Lins foi uma espécie de Deus, criou seu próprio universo, fez nascer a luz sem negar a existência das trevas, mais do que isso, ele admitiu que “os começos jazem das sombras”.

Osman Lins não foi indiferente ao complexo jogo da vida:
... A indiferença do escritor é adequada à sua presumível elevação de espírito? Para defender a unidade, o nível e a pureza de um projeto criador, mesmo que seja um projeto regulado pela ambição de ampliar a área do visível, tem-se o privilégio da indiferença? Preciso ainda saber se na verdade existe a indiferença: se não é - e só isto - um disfarce da cumplicidade. Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim - de nós. Pode o espírito a tudo sobrepor-se? Posso manter-me limpo, não-infeccionado dentro das tripas do cão? Ouço: 'A indiferença reflete um acordo, tácito e dúbio, com os excrementos' Não, não serei indiferente.
LINS, Osman. Avalovara, 1973.

luciana MELO


Roupa Nova...

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... a outra era cliché! veste melhor?


Dia Mundial da Arquitectura

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"Quero recordar uma frase de Le Corbusier que dizia que das muitas soluções que existem para resolver uma casa, ou qualquer edificação levada a cabo pelo homem, pode existir um grande número que se resolva bem, no entanto, se uma delas o resolve pensadamente e numa forma bela, é dizer estética, então a Arquitectura é arte."
Luís Barragan
in "escritos y conversaciones"
El Croquis Editorial
Hoje comemora-se o Dia Mundial da Arquitectura, a Ordem dos Arquitectos aproveitou a data para lançar nova página Web, mais bonita é verdade, mas mais difícil de ler... é caso para colocar a célebre pergunta: "forma ou função?"



O BANQUETE

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Nas horas desertas de uma sala escura, vislumbra-se apenas o halo de seu rosto. As cortinas pesadas ocultam ainda mais as formas da noite.
Perdido em pensamentos vãos, as órbitas de seus olhos saltam e iluminam-se. Contraste com a escuridão densa e opaca. Podia-se tocar o breu da noite, sentir sua espessa camada negra, fria e gelatinosa.
Tateia distraidamente os objetos sobre a mesa com a precisão de quem acerta as horas em seus milésimos de segundo.
Sua mão toca a espátula pontiaguda e, então, começa a abrir, uma por uma, as cartas guardadas no fundo da gaveta. Com destreza, enfia a ponta no canto do envelope e sai rasgando o papel firmemente num só movimento.


Seu coração ficou pesado como se a poeira do tempo tivesse se depositado nele, formando uma crosta tão dura que lhe impedia de respirar livremente.
Por muitos anos sua covardia adiou a leitura das cartas. Temia as palavras mais do que o próprio abandono ao qual se lançou. Duplo abandono.
Vivia de forma miserável, se arrastando pela casa como um pobre diabo, tinha aquela cara sempre macerada revestida de uma palidez angustiante. Seu andar era oblíquo, típico de quem se esconde de si mesmo.


Decidido a mudar, ele espera a noite chegar para encobrir-lhe as fraquezas. Tira as cartas do fundo da gaveta. Abre-as pausadamente como se prestasse um culto às palavras reclusas.
Olha aquele monte de papel e vai até a cozinha. Traz uma vela, uma bela garrafa de cabernet e um prato – a mais fina porcelana chinesa. Pica as cartas em pequenos bilhetes e serve-se deles.
Come cada pedacinho com a solenidade pedida nos banquetes e depois vai dormir.

luciana MELO


A Infinita Prateleira das Metáforas #027

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Primer Muerte de María

María de Buenos Aires
murió por primera vez;
se lo dijeron - fue tarde...
con sus muecas funerales,
un puñal y un cascabel.
Y el alba se atoró con sensación de embolia
rea, de cuando la Niña, arriando el gesto,
rumbo a una calle con velones y magnolias
ya con las cosas de morir y el frío puestos.
Y en la esquina donde aún tejen
las Mamitas con esplín,
dos Malenas de relente
- que habían muerto muchas veces -
le enseñaron a morir.
Misterio allá, misereteando en la maroma
de un jingle obsceno en soledad de sacramento,
fueron cinchando la cureña de palomas
los doce judas de un cristito temulento.
Por las fábricas, las pibas
que hacen la noche a telar,
le pusieron, a María,
un malvón de poliamida
y una orquídea de percal
Por el escote, le salía una neblina
negra y atada con la cinta sucia y triste
que un raro beatle destrenzaba, a la sordina,
del luto misterioso de sus twistes.
Se murió tanto la Niña
cuando se puso a morir,
que era una trágica encinta
que, llena de muertecitas,
no cesaba de parir!
Que cosa! nuestra María
murió por primera vez...
La enterraron dos mendigas
al doblar de las propinas
en la borra de un express.
Pero en su sola catamufa, zurdo antojo
de un loco mimo sobrehumano, a contrayumba
de dos pequeñas explosiones de los ojos,
echó dos lágrimas de rimmel por la tumba...
María de Buenos Aires
lloro por primera vez.

Horacio Ferrer
in "Maria de Buenos Aires"
Contramilonga a la funerala por la primer muerte de Maria

Milonga del Angel »» Astor PIAZZOLLA


De Tarde

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- sai da bicicleta! já te disse! agora é a minha vez... grita a Mariana ao Pedro no terreiro do prédio. E o Sábado vai-se construindo destas melodias infantis agitadas, misturando a vida com o sol morno de Outono, à espera que o livro não traga alguma notícia ruim.
v. LEAL BARROS


O Blog

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