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Lá vai se vai Herodes, rodopiando ao bel prazer do torvelinho da água.
Enquanto aperta a descarga, ela deixa transparecer um riso esgarçado.

- O amor tem farpas. Então, aparemos as arestas!

***

Uma vez, ele lhe falou sobre aquele peixe tão bonito, de colorido incomparável, de escamas luminosas. Falou de seus hábitos, de como sua beleza era um mero pretexto, uma armadilha para fisgar admiradores desligados.

- Ao atrair a presa, o peixe executa um bailado hipnótico.

- Isso é horripilante. Tal como uma Salomé reencarnada, ao final da dança, ele exige uma cabeça na bandeja de prata.


***

Dias mais tarde, ele entrou em casa com aquele aquário odioso. Disse que tinha comprado para ela. Logo para ela que sempre detestou a idéia de ter peixes como bicho de estimação. Logo ela que não dispensa afagos.
Recebeu ‘aquilo’ sem muita emoção e foi tratando de arrumar um lugar num móvel da sala.
Sempre que passava em sua casa, questionava-a sobre os cuidados, se estava alimentando o peixe direito, se não esquecia de purificar a água e outras tantas coisas.

Até que um dia ele trouxe um saquinho nas mãos. Tinha as sobrancelhas arqueadas:

- Comidinha para o peixe. Hoje vamos poder ver a tal ‘dança da morte’. Lembra que eu te contei?

Não podia estar falando sério. Ela não queria ver nada. Muito menos um ritual de execução, ainda que isso fizesse parte da cadeia alimentar, do ciclo natural da sobrevivência animal, da ciência!
Ela fez tudo que pode para que ele esquecesse do fato: serviu o jantar, sobremesa, tomaram um café, licor, colocou um filme no vídeo cassete.

Terminado o filme, ela imaginou que pelo adiantado da hora, ele iria embora, mas não, levantou eufórico e foi pegar o saco. Abriu com cuidado e despejou o conteúdo dentro do aquário.

- Não quero ver isso.

Puxou-a pelo braço e apertou-lhe as carnes fortemente. Fez com que ela assistisse toda a corte, o balé, a sedução. Quando a dança acabou, o peixinho estava como que hipnotizado, não se mexia, apenas contemplava o novo ‘amigo’ estupefato.
E num último movimento, lento, compassado, Herodes abocanhou-o pelo rabo e quando chegou perto da cabeça, mordeu, dispensando a iguaria.

- Viu? Você percebeu? Nem por um minuto, Herodes brigou ou usou de violência. Ao contrário, enfeitiçou a presa de forma amigável até que ela ficasse entregue ao seu charme.

Atônita, ela simplesmente balançou a cabeça de modo afirmativo.

Excitado, ele foi se aproximando, agarrou-a pelos cabelos e trouxe seu rosto para bem perto de sua boca:

- Vou devorar você.

Apesar do medo, ela o encarou olhando bem dentro dos olhos:

- Devore, mas seja inteligente. Não despreze minha cabeça.

Afrouxou a mão dos seus cabelos, percebendo que mesmo acuada, era ela quem liderava a dança.
Luciana MELO


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