FALAMOS IGUAL »» BRASIL


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"Ouro Preto" »» Mário GRUBER
Que Catedral
Era impossível precisar em que língua, que sociedade e que época a catedral subterrânea estava sendo escavada. Em primeiro lugar, os homens não diziam palavra, não conversavam entre si, não pediam nada a ninguém. Eram todos iguais, como nas gravuras políticas do expressionismo alemão, e da mesma altura. Faziam gestos maquinais. Aliás o imenso vão era tão escuro e os homens pareciam formigas, terrosos, fuliginosos, sem cor, cavando sem parar como apêndices de uma vontade central incognoscível. Nenhum vestígio de alguma coisa datável, arqueológica, havia nos limites do oco. Só terra, toda de uma mesma camada, e os homens enfiando as ferramentas como ferrões na terra. A única coisa indubitável era a destinação ritual daquele espaço (e do esforço?) aberto a muitos metros da superfície. Permaneceu para sempre ignorado que tipo de civilização flanava por cima. Que requinte tecnológico ou improvisação primitiva, por exemplo, levava o ar até lá dentro. Nem nunca se soube como saía a terra escavada, ou por onde passaria a galeria de acesso. Tudo se resumia àquele oco, ao negrume do útero primordial, ora que idéia a desses caras, uma catedral invisível, submersa, abafada, cujo pleno vazio indefinível os braços truculentos moldavam sem saber para quê. O que importava, na explanação teológica, era a “chusma de gestos em uníssono”. A visão militante propôs que o traje de galé, terroso, fuliginoso, sem cor, era um resíduo muito claro, na verdade, da idéia de dominação persistente. Que poderia propor a visão poética: um conclave de sangue? um modismo? Acabamos concordando, quando nos reunimos para discutir esse tema, que para dar-lhe credibilidade só a linguagem do sonho. Qualquer um sonharia a catedral que quisesse, ou poderia ter sonhado, e não se lembrava. Abstinência pessoal, no caso extremo, para a absorção das ranhuras nas paredes da mãe. A noção de moringa: forma para a catedral. E a óbvia conotação de umidade, para dar à idéia – de catedral pré-existente – o sal (antigo) do recolhimento.
Leonardo Fróes
in “Poesia do Mundo”
ant. de Maria Irene Ramalho
Edições Afrontamento
Leonardo Fróes nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1942. É poeta, tradutor e jornalista. Entre outros autores, traduziu para português livros de William Faulkner e D. H. Lawrence. De entre a sua poesia, publicou O anjo tigrado (1975), Sibilitz (1981) e Argumentos invisíveis (1995). Montanhista e naturalista amador, traduziu também livros de especialistas em ciências da natureza, como o ornitólogo Helmut Sick, e o mirmecólogo Edward O. Wilson. Em 1998 a sua obra poética foi reunida em Vertigens, publicada pela Rocco, Rio de Janeiro.
Nota: Leonardo Fróes é um poeta de uma geração anterior à que tem vindo a ser publicada nesta série. Entendeu-se que deveríamos abrir uma excepção pela qualidade e singularidade da sua obra poética.


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