NEVA EM MIM #014

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A música penetra-me nas entranhas, e envolve-me...
Atiro-me para cima da cama e abraço a almofada, como se ela me desse algum aconchego.
As lágrimas caem-me pela cara. O vazio preenche todo o meu peito. Sinto frio.
Não me lembro do cheiro a mamã, que conforta quando algo nos dói, não me lembro de um colo de mamã, não me lembro de um abraço de mamã.
Tenho frio.
Abraço-me aos meus bonecos de peluche, como se deles pudesse extrair alguma sensação de carinho e aconchego.
Choro. Dói-me o peito.
Onde está o meu Amor? Porque não vem ele apertar-me forte nos seus braços, beijar-me os olhos molhados das lágrimas?
Porque não vem o vento, com os seus longos dedos, acariciar o meu cabelo?
E o sol? Porque não vem embalar-me e dizer-me que tudo vai ficar bem?
A minha mente arrasta-me até um lugar muito frio.
Estou deitada num chão preto, muito frio... Não consigo mexer-me... Espinhos pendem do tecto e podem cair a qualquer momento.
Dá-me a mão. Quero voltar para o campo de flores cheio de sol.
cláudia NEVES


CONVIDADO ESPECIAL #012

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Cristo falando à Humanidade
Apanha-me as migalhas, por favor. São pedaços que deixei de mim nas tuas mãos, julgando-te com uma dessas fomes danadas, de queixo aguçado e olhos saltando das órbirtas. Não tens dedos delicados e humildes para numa paciência de puzzle confortares o estômago com tão miseráveis pedaços do pão que te dei. Tinha como te alimentar e te fortalecer os músculos para uma luta mais justa, agora que é tão intensa e não podes fugir dela. Tinha todas as fontes onde pudesses saciar as tuas sedes. Preferiste espalhar-me ao largo, voltar costas, com um aceno breve por cima dos ombros arrogantes. Agora não sei. Nunca soube se esse aceno era de repúdio ou se querias ainda que te pusesse a mão por baixo, como se faz aos passarinhos que aprendem os primeiros passos do voo. Nada mais a dizer. Recolhe-me por favor as migalhas, e devolve-me o corpo, traçado a dores que não quiseste compreender.
José Alexandre Ramos
via Que farei quando tudo arde?
ps. Benvindo!


OLHARES #041

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D. Quixote »»» Pablo PICASSO
Há alturas em que precisamos de reciclar-nos, renovar energias, para depois continuarmos caminho. Parto à procura de D. Quixote. Regresso com o cair das folhas. Até lá bons posts!
v. LEAL BARROS


AFORISMOS #008

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"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".
Fernando Pessoa


FALAMOS IGUAL »» GUINÉ-BISSAU

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"Bissau" »»» Keba KONTE

Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeirosSaberão quem fomos

Maria Odete Semedo
in “Entre o Ser e o Amar”
INEP, 1996

Maria Odete Semedo nasceu em Bissau a 7 de Novembro de 1959. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Fundadora da "Revista de Letras, Artes e Cultura Tcholona". Publicou um livro de poemas "Entre o Ser e o Amar", em Bissau (1996). É actualmente investigadora, na capital guineense, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, para as áreas de Educação e Formação.



Poema Ancestral

Lembra os dias antigos

Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe...


Crisódio T. Araújo


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Não Mais Sob a Árvore de Bô


Não mais a pureza de Ramahyana


o incenso e o sândalo


os pés nus nas pedras do templo


enquanto eles comerem na minha mesa

na velha casa de Dili


não mais me sentarei sob a árvore de Bô



Jorge Lauten
in "Enterrem o meu coração no Ramelau - Antologia de Poesia Timorense"
União Angolana de Escritores, 1982


OLHARES #040

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Bem... que se passa na blogosfera?! Hoje foi o Alexandre que terminou o no oco da boca... há que ter calma meus amigos!! Uma coisa é certa, para que um blogue se mantenha vivo é necessário enchê-lo como um chouriço, caso contrário ele morre ou fica meio adormecido e nem sempre temos vontade, paciência e ideias para que siga rumo. Acho que muitas vezes gastamos tempo e energia a mais nesta tarefa, eu pelo menos acho que gasto. Percebo perfeitamente os desabafos de quem termina um blogue e até concordo com grande parte... mas calma lá, isto são apenas blogues, e apesar da diversão e/ou conhecimento que nos passam, não deixam de ser sítios insignificantes da internet, ela própria carregada de tralha que não serve para nada. Fico com a impressão de que esse cansaço se deve às motivações (por vezes desajustadas) que levam as pessoas a criar um blogue. Se encarassemos isto como um passatempo substituível às horas que passamos a ver televisão, a coisa nem é grave, agora levá-lo como um trabalho que tem forçosamente que dar frutos já é pedir demais. Apesar de tudo continuo a achar que vale a pena manter um blogue... mais não seja pelas (poucas) pessoas que conheci e pela partilha desinteressada de ideias e conhecimento que mantenho com algumas delas. E sim, isto é um passatempo, não uma obrigação... cada um deve postar ao seu ritmo e consoante a sua disponibilidade e se a lentidão for a causa da morte ou inércia do blogue, pois que seja, não há drama nenhum. Até lá vai-se levando a coisa...
v. LEAL BARROS


OLHARES #039

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É uma pena mas o Francisco José Viegas terminou com o Aviz. Resta-nos o Gávea, o blogue que dedica à literatura brasileira.
Aproveitando o tema, o Rain Song também terminou, mas parece existir um prolongamento aqui.
v. LEAL BARROS


FALAMOS IGUAL »» BRASIL

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"Ouro Preto" »» Mário GRUBER
Que Catedral
Era impossível precisar em que língua, que sociedade e que época a catedral subterrânea estava sendo escavada. Em primeiro lugar, os homens não diziam palavra, não conversavam entre si, não pediam nada a ninguém. Eram todos iguais, como nas gravuras políticas do expressionismo alemão, e da mesma altura. Faziam gestos maquinais. Aliás o imenso vão era tão escuro e os homens pareciam formigas, terrosos, fuliginosos, sem cor, cavando sem parar como apêndices de uma vontade central incognoscível. Nenhum vestígio de alguma coisa datável, arqueológica, havia nos limites do oco. Só terra, toda de uma mesma camada, e os homens enfiando as ferramentas como ferrões na terra. A única coisa indubitável era a destinação ritual daquele espaço (e do esforço?) aberto a muitos metros da superfície. Permaneceu para sempre ignorado que tipo de civilização flanava por cima. Que requinte tecnológico ou improvisação primitiva, por exemplo, levava o ar até lá dentro. Nem nunca se soube como saía a terra escavada, ou por onde passaria a galeria de acesso. Tudo se resumia àquele oco, ao negrume do útero primordial, ora que idéia a desses caras, uma catedral invisível, submersa, abafada, cujo pleno vazio indefinível os braços truculentos moldavam sem saber para quê. O que importava, na explanação teológica, era a “chusma de gestos em uníssono”. A visão militante propôs que o traje de galé, terroso, fuliginoso, sem cor, era um resíduo muito claro, na verdade, da idéia de dominação persistente. Que poderia propor a visão poética: um conclave de sangue? um modismo? Acabamos concordando, quando nos reunimos para discutir esse tema, que para dar-lhe credibilidade só a linguagem do sonho. Qualquer um sonharia a catedral que quisesse, ou poderia ter sonhado, e não se lembrava. Abstinência pessoal, no caso extremo, para a absorção das ranhuras nas paredes da mãe. A noção de moringa: forma para a catedral. E a óbvia conotação de umidade, para dar à idéia – de catedral pré-existente – o sal (antigo) do recolhimento.
Leonardo Fróes
in “Poesia do Mundo”
ant. de Maria Irene Ramalho
Edições Afrontamento
Leonardo Fróes nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1942. É poeta, tradutor e jornalista. Entre outros autores, traduziu para português livros de William Faulkner e D. H. Lawrence. De entre a sua poesia, publicou O anjo tigrado (1975), Sibilitz (1981) e Argumentos invisíveis (1995). Montanhista e naturalista amador, traduziu também livros de especialistas em ciências da natureza, como o ornitólogo Helmut Sick, e o mirmecólogo Edward O. Wilson. Em 1998 a sua obra poética foi reunida em Vertigens, publicada pela Rocco, Rio de Janeiro.
Nota: Leonardo Fróes é um poeta de uma geração anterior à que tem vindo a ser publicada nesta série. Entendeu-se que deveríamos abrir uma excepção pela qualidade e singularidade da sua obra poética.


OLHARES #038

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Hoje o Glossolalias faz um ano. Muitos PARABÉNS à Lu pela companhia que nos vai fazendo. Um beijo grande para ti.
v. LEAL BARROS


FALAMOS IGUAL »» CABO VERDE

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"Estudo para composição Blimunde" »»» Manuel FIGUEIRA
ET IN ARCADIA EGO
Lápides e torres. P'lo fumo
coalescendo em tua garganta
ou p'lo murmúrio do papagaio
afinando seu repertório de injúrias,
sabes que é manhã.
Luz concebida para a morte.
Como esse azul que a distância esboroa.
Jamais o céu negríssimo pulsando
na gasta moldura da janela.
Tu, bípede que magnificaste esse vítreo
antiquíssimo esplendor, como anunciar
agora pelos desdoirados cimos
a insonora implosão das arcádias?
Recomeça onde o ar lastrado
dizer-te não possa desse dia em que,
esmaecido, o desejo ainda canta:
sem coercivo modelo
a vigiar o horizonte da representação,
todo o defeito é arte.
José Luís Tavares
in "Agreste Matéria do Mundo"
Campo das Letras
José Luís Tavares nasceu em 1967, no lugar de Chão Bom, concelho do Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde. Estudou Literatura e Filosofia. Tem colaboração em jornais e revistas de Cabo Verde, Portugal e Brasil. Pelo seu primeiro livro publicado, "Paraíso Apagado por um Trovão", recebeu o Prémio Mário António de Poesia 2004, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian à melhor obra de autor africano de língua portuguesa e de Timor-Leste publicada no triénio 2001-2003.


FALAMOS IGUAL »» PORTUGAL

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"sem título" »»» Valdemar SANTOS
Setembro
Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros
em debandada
Experimentava uma exaltação - de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável
O que deixaste abandonado regressa - aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa
José Tolentino Mendonça
in "De Igual para Igual"
Assírio & Alvim
José Tolentino Mendonça nasceu na Madeira em 1966. Formou-se em Teologia na Universidade Católica de Lisboa com uma dissertação sobre a poesia de Ruy Belo. Terminou o seu mestrado em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Foi ordenado Padre em 1990, tendo sido capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Além de poeta, José Tolentino Mendonça é também ensaísta e tradutor. A sua obra poética inclui os títulos: Baldios (1999), De Igual para Igual (2001), A Estrada Branca (2005), todos publicados pela Assírio & Alvim.


FALAMOS IGUAL »» ANGOLA

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" A Nostalgia da Amada do Contratado " »»» Benjamim SABBY
"Tratem-me com a massa"
"Amparai-me com perfumes, confortai-me com maçãs
que estou ferida de amor..."
Cântico dos Cânticos
Tratem-me com a massa
de que são feitos os óleos
p'ra que descanse, oh mães
Tragam as vossas mãos, oh mães,
untadas de esquecimento
E deixem que elas deslizem
pelo corpo, devagar
Dói muito, oh mães
É de mim que vem o grito.
Aspirei o cheiro da canela
e não morri, oh mães.
Escorreu-me pelos lábios o sangue do mirangolo
e não morri, oh mães.
De lábios gretados não morri
Encostei à casca rugosa do baobabe
a fina pele do meu peito
dessas feridas fundas não morri, oh mães.
Venham, oh mães, amparar-me nesta hora
Morro porque estou ferida de amor.
Ana Paula Tavares
in "O lago da lua"
Caminho, 1999
Ana Paula Tavares nasceu na Huíla, Sul de Angola, em 1952. É historiadora com o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Em Angola publicou Ritos de Passagem (poemas), UEA, 1985. Em Cabo Verde, Praia, O Sangue da Buganvília em 1998. Na Editorial Caminho publica em 1999 O Lago da Lua (poemas), seguido de Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (poemas) em 2001 (obra galardoada com o Prémio Mário António de Poesia 2004 da Fundação Calouste Gulbenkian), e em 2003 Ex-Votos (poemas). Tem participação com poesia e prosa em várias antologias em Portugal, Brasil, França, Alemanha, Espanha. Publicou alguns ensaios sobre História de Angola.


A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #026

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Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...

Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos


FALAMOS IGUAL »» S. TOMÉ E PRÍNCIPE

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sem título »»» João Carlos NEZÓ
Mural
Todo o arquipélago é um deserto
surdo sem olhos
crivado de frio e dedos mortos
As árvores e os frutos
fugiram para o Sul
num galope de remorso
abraçados ao vento.
Seguiram-se as borboletas
loucas esguedelhadas
papagaios multicolores, alucinados
um falcão real envolto em lianas.
Arqueja luto o coração do mar
relampeja verde o coração do mar
e uma andorinha tresluz decepada
na esquina breve do teu rosto
Conceição Lima
in "O Útero da Casa"
Caminho
Conceição Lima nasceu na ilha de São Tomé, em 1961, aí cresceu e fez os estudos primários e secundários. Estudou jornalismo em Portugal. Em São Tomé e Príncipe trabalhou e exerceu cargos de direcção na Rádio, Televisão e na imprensa escrita. Depois da abertura multipartidária no seu país, fundou, em 1993, o já extinto semanário independente O País Hoje, de que foi directora. É licenciada em Estudos Afro-Portugueses e Brasileiros pelo King’s College de Londres e mestre em Estudos Africanos, com especialização em Governos e Políticas em África, pela School of Oriental and African Studies (SOAS), de Londres, onde reside e trabalha como jornalista e produtora dos serviços de Língua Portuguesa da BBC. Tem poemas dispersos em jornais, revistas e antologias de vários países. O Útero da Casa é o seu primeiro livro.


DE QUEM ME FALA #006

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D'Ela...
Estou morta é um facto. Mesmo tu, a única testemunha de que não perdi a voz, resistes, obrigas-te ao mesmo exercício e à mesma disciplina para que o amor não parta, para que o amor não corra e se esconda longe, lá onde o mar esconde o sol. Sabes, antes de me lançar ao Saône, antes de mergulhar definitivamente no rio que insiste em ser mulher, eu já tinha morrido umas quantas vezes ainda com o sangue a correr-me nas veias. Matei-me quando já não aguentava a saudade do corpo d’Ele, matei-me sempre que o peso dos cornos e daquela maldita poesia se tornava insuportável, matei-me quando conheci o outro e constatei que o amor, o meu amor era impossível. Não digas que não sabias que vamos morrendo ao longo da vida? Agora... agora nada deves temer, estou morta é um facto, não há nada a fazer. Cuida-te com as mortes dos vivos, essas sim, essas doem verdadeiramente.
v. LEAL BARROS
Nota: Para melhor compreensão do encadeamento dos textos desta série, foi acrescentado aos textos já publicados um prefixo identificando o narrador correspondente.


FALAMOS IGUAL »» MOÇAMBIQUE

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"O Juízo Final" »»» MALANGATANA Valente

Nostálgica Prata a Lua

Nostálgica prata a lua, minério verbal da saudade, hoje que eu queria falar de amor e constato as brandas navalhas que saem dele como se fossem sinais puídos em sua defesa, já não há gente para percorrer estes mapas, este destino para onde emigram os poetas, os encantados e os loucos a quem se pede que olhem fixamente, as naus felizes e penetrantes pelo tempo, mais jovens agora e mais vulneráveis ainda, nem nenhuma bebedeira que engane um marinheiro cantando o nome de quem ama, já nada há que valha para falar de pé no amor, as casas já não escondem a mão de um amante sondando alguma servil paixão, frágil e delicada, maculada em sacerdócio no nu dos beijos, porque estou eu insistindo em falar de amor onde ele nem respira e nem por si se imolam os cordeiros, nem arde sem febre e sem fúria, nem medo tem de tremer face ao adeus, amor que já foi uma longa vertigem, uma tontura aprazível, falar dele para quê se não o devolvem e o cultivam, se nem o sangue corre em prova da sua beleza, exijo que o pronunciem e riem-se de mim como se fosse patético o peso que lhe dou em minha vida, falar de amor com quem, quem que possa sentir a força misteriosa da sua música, caber nela visitado e invisível, mancha indelével na superfície da carne, um nome tardio, um poema sentenciado a morrer comigo, falar de amor como se me ordenasse a viver dentro de um abrigo, eu tento, mas as palavras que o vestem têm medo e preferem o silêncio a não serem entendidas.

Eduardo White

in "Madera Zinco – Revista Literária Moçambicana"
edição 5
Out. 2003

Eduardo White nasceu em Ouelimane (Moçambique) em 1963. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Publicou os seguintes livros: “Amar sobre o Índico” (1984); “Homoíne” (1987); “País de Mim” (1990; Prémio Gazeta revista Tempo); “Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992; Prémio Nacional de Poesia); “Os Materiais de Amor Seguido de O Desafio à Tristeza” (1996); “Janela para Oriente” (1999); “Dormir com Deus e um Navio na Língua” (2001; bilingue português/inglês; Prémio Consagração Rui de Noronha); “As Falas do Escorpião (novela; 2002); “O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004). A sua poesia está exposta no museu Val-du-Marne em Paris desde 1989. Em 2001 foi considerado em Moçambique a figura literária do ano.


COMUNICADO #015

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O Povo é Bom Tipo comunica que apartir de hoje e durante as próximas semanas será publicada uma nova série dedicada à lingua portuguesa intitulada "FALAMOS IGUAL". Esta série tem como objectivo evidenciar a riqueza e beleza da nossa língua nas suas diferentes expressões e estilos. Para tal resolvemos dedicar cada post a um autor contemporâneo com origem num país de expressão portuguesa. A escolha dos autores e dos textos não segue outro critério que não as nossas afinidades e gostos pessoais.


NEVA EM MIM #013

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A noite cobriu o meu espaço. Tudo fica silencioso.
Ouvem-se os latidos dos cães de vez em quando. Uns mais distantes, outros mais perto. Comunicam.
O ruído de um carro passa ao longe.
Fecho os olhos, um zumbido penetrante entra pelos meus ouvidos, o zumbido do silêncio.
Não posso prestar-lhe atenção, senão vai enlouquecer-me.
Fecho novamente os olhos e sou sugada para outra dimensão.
Vejo-a. A menina dos olhos castanhos.
Já não sei se ainda assim lhe chamam.
Existia ali um abismo, lama, um céu cinzento.
Vi-a coberta de lama, chorando, gritando com a Outra que existia dentro dela e que destruía em minutos, o que ela tanto tinha demorado a construir. A Outra, conseguia preencher cada célula do seu corpo, com o medo.
A menina dos olhos castanhos, encontrava-se muito perto do abismo. Mergulhada num frio glaciar.
Vi que mais tarde, um raio de sol, começou a iluminar-lhe a face.
Ela não queria mais ter medo e deixou que o sol a tocasse.
Um raio de sol, vindo na forma de amor.
Deixou de prestar tanta atenção à Outra. E retribuiu, do seu modo, o raio de sol, ao sol.
As restantes imagens, passaram como flashs.
Ela era abraçada por incontáveis raios de sol e retribuía do mesmo modo.
Alguns medos diferentes. Sol. Lama. Sol. Medos. Sol. Sol. Quedas. Sol. Um resvalar pelo abismo. Dor. Dor. Dor. Sol. Sol. Sol. Medos. Sol.
As imagens foram passando sucessivamente, a uma velocidade estonteante.
No final, olhei-a.
A menina dos olhos castanhos tinha desaparecido. A menina dos olhos castanhos, não era mais a menina dos olhos castanhos.
Era uma mulher cheia de força, capaz de lutar até ao fim, por tudo aquilo em que acreditava. É certo que com medos e inseguranças como todo o mundo. Mas com o conhecimento profundo do amor. Pois deixou que o amor a tocasse, até a envolver por completo e ama com todo o coração.
A menina dos olhos castanhos, já não é mais a menina dos olhos castanhos...
cláudia NEVES


O POVO É BOM TIPO #019

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"THERE'S ANYTHING OUT THERE?" »»» v. LEAL BARROS


Röyksopp - What else is there


CONVIDADO ESPECIAL #011

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OLHARES #037

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Há alguns blogues em que somos muito mal recebidos. Batemos educadamente à porta e correm-nos de forma tão rude como se lhes tivessemos violado o sono. Pergunto-me o que levará estas pessoas a publicar um blogue se quando recebem um comentário de alguém exterior ao "clã" reagem dessa maneira?!... das duas uma, ou sofrem de uma "egotite" crónica ou já nasceram zangados com o mundo.
v. LEAL BARROS



...DEPOIS DE ME PERGUNTAREM «O QUE É UM HOMEM?»,
RESPONDI.....

à maneira de Keats...
O meu filho mais velho visita-me
no hospital. Traz gigantescas
peónias e a enfermeira coloca-as
numa jarra de vidro, e elas inclinam-se serenas
sobre o parapeito da janela onde
parecem ter receio de contemplar a cidade
lá em baixo, coberta de fumo. Pergunta-me quando
irei para casa. Não sei.
Vê que há fios que se estendem
de mim para uma televisão onde
o pulsar do meu coração é o Sunday Spectacular.
Como é que estou?, pergunto. Examina
o écran e diz: Não sei.
É preciso um especialista para te dizer como
te encontras, mas ninguém o vai fazer.
Devo ter adormecido, e quando acordo
estou sozinho, e o velho
ao meu lado desapareceu, e o quarto
está a escurecer. Este é o domingo
que preencherá a promessa nunca feita
de todos aqueles domingos desaparecidos
em que uma sombra do canto
do olho se aproximou, enorme, hesitou e partiu,
e eu suspirei cansado pois sabia
que teria de viver aqui mais uma semana.
Finalmente um tempo e um lugar para morrer me
são dados, e até uma pequena justificação.
As flores voltaram-se agora, pois
as janelas já escureceram, e eu
vejo os seus rostos pálidos no espelho liso
do vidro. Não, não estão a chorar,
pois isto não é um vale de lágrimas.
Riem tranquilas como as flores
sempre fazem na companhia dos homens.
«Porque este é o lugar onde as almas
são feitas», murmura o seu riso.
Hei-de ler Keats outra vez, erguer-me-ei
e irei pelo mundo, sem fios e livre;
porque já não sou um filme,
não tenho um começo, um meio, um fim,
nem um fundo musical a realçar cada cena,
um guarda-roupa ou um técnico da cor.
Sou apenas um homem que se veste no escuro
porque é isso que é um homem -
tantas bocas cheias de riso
e outras mais, tudo que pode existir
atrás dos tristes e castanhos dorsos das peónias...
Philip Levine
in "A pura verdade"
trad. colect. revista por Maria de Lourdes Guimarães
Quetzal Editores (Poetas em Mateus)


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