LEITURAS ÚLTIMAS #006


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Tonino GUERRA
Hoje entrei na livraria e dirigi-me à secção de poesia. Já há algum tempo que não comprava um livro de poemas. Hesito sempre quando estou em frente ao expositor, a minha relação com a poesia é desconexa, tenho imensa dificuldade em trazer comigo um livro de poemas.
Acontece-me frequentemente retirar da estante os livros dos poetas com quem construí uma relação de intimidade, aqueles que partilhei segredos e cumplicidades, raramente outros livros me chamam. Não consigo perceber porque é que os meus olhos caminham sempre nessa direcção, como se procurassem um encontro fortuito com um amigo que não viam há imenso tempo e naquele momento tivessem necessidade de contar-lhe tudo o que se passou durante a ausência. É sempre assim, e o reencontro é sempre uma experiência tranquilizadora, como se o tempo não tivesse alterado nada. Por instantes temos certeza de que na essência continua tudo lá, inabalável como sempre foi.
Quando por curiosidade ou jogo de sedução os meus olhos se perdem por outras lombadas e as mãos obedecem e folheiam outros livros, a experiência nem sempre é satisfatória. Fico com a sensação de que me falam num idioma estranho, que eu não entendo por mais disponível e receptivo que esteja ao diálogo que pretendem estabelecer comigo. Nessas alturas, quando a comunicação é impossível por muito esforço que faça, fecho educadamente o livro, recoloco-o na prateleira do expositor e saio da livraria de cabeça baixa, praguejando com a minha insatisfação.
Ás vezes tenho a sensação de que os livros de poesia são como as pessoas, não vale a pena forçar encontros e conhecimentos, ou há comunicação e tornamo-nos amigos para toda a vida ou caso contrário cada um segue o seu caminho e não há que ter remorsos por isso.
Bem, tudo isto para dizer que não há regra sem excepção e hoje tive oportunidade de confirmar isso. Estava eu quase a desistir de trazer um livro de poemas comigo, quando ouço da estante um pssssttt, pssssttt… parei e tentei perceber de onde vinha o som. Lá do alto, no canto superior direito do expositor, meio escondido pela “Obra Completa” de Guerra Junqueiro, havia um livro a chamar-me timidamente. Retirei-o do expositor e segurei-o fechado nas mãos, chamava-se “O Mel” e era de um autor que eu desconhecia, um tal de Tonino Guerra. Sentei-me num dos sofás que algumas livrarias ainda têm o bom senso de proporcionar aos seus clientes e comecei a folheá-lo calmamente. A edição era bilingue, as páginas da direita num português que me entrava forte na alma e as da esquerda numa língua ou dialecto que eu não conhecia. Morto de curiosidade abri o livro na apresentação do tradutor (Mário Rui de Oliveira), não conseguia ler mais nada sem saber que língua estranha era aquela. Romagnolo, dizia o tradutor, um dialecto lá dos confins da Emília Romagna em Itália. Terminei a apresentação e fui levado, sem qualquer espécie de resistência, do Canto Primeiro ao Canto Último, viajando pelos trinta e seis textos que dão corpo a “O Mel”. Digo apenas que antes de pagar o livro e sair da livraria, fui muitos personagens de Fellini, viajei por Itália, soube que havia muita gente a contar histórias semelhantes às que eu ouvia dos meus avós, brinquei com o meu pai quando ele era criança, fizemos as mesmas asneiras juntos, lembrei-me do meu irmão e dos sonhos que temos para a nossa velhice, fui imigrante no Brasil ou na América… fui tanta coisa durante aquela hora... Deixo aqui uma lembrança da viagem.
Canto Sexto
Bina vivia num barracão
na estrada torta e levava em passeio
uma cabra pelos carreiros.
Ninguém sabia se era homem ou mulher:
tetas tinha, mas também tinha bigodes
e tamancos de montanha.
Nós, crianças, procurávamos descobrir
se por baixo do saiote se via alguma coisa,
mas ela apertava as pernas
envoltas nas ceroulas.
Com homens nunca se soube se foi,
com um animal talvez, mas conta-se
que à mais velha das três irmãs americanas
fazia tirar o leite das tetas da cabra.
Dizia-lhe em voz baixa: "Aperta-a na mão, mantém-na dura,
não a deixes". E por vezes com a sua mão cobria
a mão da moça e os últimos puxões
fazia-os com ela para mostrar que sempre restava
no fundo da teta uma gota de leite.
Agora Bina tem quase cem anos. Caminha
atrás da cabra e não olha para a cara de ninguém.
Tonino Guerra
in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim
v. LEAL BARROS


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