OLHARES #032

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Esta é uma notícia importante... levantamos o chapéu aos espanhóis.
Os deputados espanhóis aprovaram hoje definitivamente a lei que dá aos homossexuais o direito de casarem e de adoptarem crianças.
A Espanha torna-se assim no quarto país do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, depois da Holanda, Bélgica e Canadá.
O Congresso espanhol (Câmara Baixa do Parlamento) aprovou de forma definitiva a lei promovida pelo partido no poder, o Partido Socialista (PSOE), tendo obtido 187 votos a favor e 147 contra, que incluíram os deputados do conservador Partido Popular (PP) e da Unió, uma pequena formação nacionalista catalã.
Quatro deputados abstiveram-se.
Os primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo podem começar a ser efectuados depois de a lei ser publicada no diário oficial do Estado espanhol, o que deverá acontecer dentro de 15 dias.
Agência LUSA
2005-06-30 10:10:01


COMUNICADO #014

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O POVO É BOM TIPO comunica que já se encontram reunidos on-line os textos da série Esquissos. Basta um clique na barra lateral, separador "Séries Extintas", para ter acesso à página.


CONVIDADO ESPECIAL #010

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Prodígios musicais

sentado lá cima
onde não há vento que não chegue do sol
alguém entorna estes prodígios
e enquanto a música desce
podes reter-te comigo a recato doutras vozes
porque ambos tememos que nos desordenem
o som genuíno dos dias
e queremos guardar o sublime e fugaz conforto dos sons
sem que ninguém os desalinhe ou corrompa

(Ao som de Carlos Seixas - “Laudamos te” - Missa a 4 em sol menor /faixa 5 – Segréis de Lisboa – Coral Lisboa Cantat)
Luís Natal Marques
via Rotação dos Tempos


E DEPOIS DO CAFÉ? #016

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"The Ballad of Jack and Rose" »»» Rebecca MILLER
"- eu fui má...
- não, tu és inocente...e a inocência pode ser perigosa"


OLHARES #031

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Parabéns a estas meninas, pelo seu primeiro ano de HORMONIOSAS.


v. LEAL BARROS


A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #021

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Bird Gerhl

I am a bird girl
I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly
Antony & The Johnsons
in "I'm a bird now"


DE QUEM ME FALA #002

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De quem ouve...
Teimam em não ouvir. Grito-lhes, agarro-os, sacudo-os violentamente e dizem-me que ainda não sabem. Que as palavras tropeçam a cada gesto de fuga. Ela foi livre, verdadeiramente livre. E sabe deus a fúria que lhe corria no sangue. Ainda hoje. Ele apaga-a a cada mortalha que pisa no cinzeiro, como se o cheiro a papel queimado evitasse o perfume do pescoço dela. Depois de morta.
v. LEAL BARROS


OLHARES #030

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"Afghan Children born in Exile" »»» Fazal SHEIKH


OLHARES #029

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"Afghan Children born in Exile" »»» Fazal SHEIKH
www.fazalsheikh.org



La Vie c'est comme une dent

La vie c'est comme une dent
D'abord on y a pas pensé
On s'est contenté de mâcher
Et puis ça se gâte soudain
Ça vous fait mal et on y tient
Et on la soigne et les soucis
Et pour qu'on soit vraiment guéri
Il faut vous l'arracher la vie
A vida é como um dente
Primeiro não pensamos no assunto
Contentamo-nos com mastigar
Depois estraga-se num segundo
Dói mas não a queremos deixar
Tratamos dela e dos cuidados
E para ficarmos realmente curados
Temos à nossa vida que a arrancar
Boris Vian

in "canções e poemas"
trad. Irene Freire Nunes
e Francisco Cabral Martins
Assírio & Alvim


NEVA EM MIM #011

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Hoje encontro-me na sombra. Dói-me profundamente o peito.
Como se uma força me sugasse bem para o fundo vazio.
Hoje ouço o mundo sozinha.
Tive um sonho esta noite. Eu podia ter feito mais, não tinha a chave, mas podia ter rebentado a porta de casa, e impedido os bebés de morrerem.
Eu podia ter feito isto, eu podia ter feito aquilo, eu podia…
Quantas vezes repetimos isto para nós?
Eu podia…
Vaguei-o pelo meu mundo semi-destruido… Hoje caminho sozinha, sentindo o frio que faz cá fora. Consigo aperceber-me da beleza de uma flor colorida. Mas de que me serve? De que me serve aperceber-me de um raio de sol muito confortante se não o posso partilhar com ninguém? De que me serve a minha quente lareira, numa noite fria de Inverno, se não posso partilhar o seu calor com alguém?
Hoje caminho sozinha, e sozinha de que me serve a magia do mundo?
Hoje, sou Sofia só para mim, e só, vivo no meu mundo inventado.
Vivo para alimentar os meus mundos de magia, que por vezes se manifestam, por vezes vejo acontecer aquilo em que acredito, e os meus sonhos são realidade.
No momento seguinte tudo parece desmoronar. Ás vezes, fica tudo tão desencantado, que nem em mim acredito e deixo de existir.
Sou simples olhar vazio. Cheio de nada.
cláudia NEVES


MELÓMANO QUIZ

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Fui surpreendido pela Ana para responder a mais um dos célebres questionários que circulam na blogosfera. Portanto, cá vai.
1) Tamanho total dos arquivos no meu computador?
Perto de 11 GB.
2) Último disco que comprei:
"Un Respiro", Wim Mertens (oferecido); “Our endless numbered days”, Iron & Wine; “Seven Swans”, Sufjan Stevens (comprados em simultâneo)
3) Canção que estou a escutar agora:
”Sunny Road”, Emiliana Torrini
4) Cinco canções que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim:
Esta pergunta é complicada, são várias as músicas que compõem a banda sonora da minha vida. A ter que optar por 5 seriam estas:
“Roads”, Portishead
“Voo Outro”, Wim Mertens
“Unison”, Björk
"Travelling Miles”, Cassandra Wilson
“Adagietto, 5ª Sinfonia”, Mahler
tenho que fazer batota! Mais estas:
“Coisas Pequenas”, Madredeus
e a Paixão Segundo S. Mateus de Bach
5) Lanço o testemunho a outros cinco bloggers:
Aos outros meninos aqui do Povo é Bom Tipo, à Luciana, à Rosa, ao Vasco e à Beatriz.
v. LEAL BARROS


DE QUEM ME FALA #001

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De quem ouve...
Eles eram tudo. E dos olhos, que lhes ficou? Uma meia-dúzia de nada… algumas palavras em desalinho, duas ou três roupas gastas e um nome branco que pudesse lembrá-los. Nunca me feriram, nunca me disseram que o sol tinha morrido. Ainda assim, o tempo mata.
v. LEAL BARROS


OLHARES #028

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"Eugénio pur mirandês", aqui.


v. LEAL BARROS


CURTAS #013

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Que tristeza é esta que me invade?
Uma triste melancolia que se entranha por entre todos os poros da minha pele, mergulha até ao fundo das vísceras, sem que eu queira ou saiba porquê…
Toma conta dos meus sentidos, qual veneno entorpece-me os membros, prende-me os músculos e cala-me a voz.
E eu entrego-me.
Sinto o veneno que se forma em meu redor e sigo-o, mergulho num buraco negro em queda livre, como se não houvesse nada mais para além desta tristeza que toma conta de mim.
Depois,
logo depois,
rejeito-a,
Acordo do transe nauseado, febril
e transpiro-a,
evaporo-a pelos mesmos poros por que se infiltrou em mim.
Regresso.
Silencia-se o grito mudo.
O calor volta,
aquece-me os membros,
desperta-me os sentidos,
e solta-me a voz.
Até quando?

alex ALEXANDRA


E DEPOIS DO CAFÉ? #015

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Wim Mertens
Todas as nossas acções são guiadas por uma certa consciência invisível que é muitas das vezes fruto dos nossos desejos e daí, eu por vezes, concluir que não existem grandes acasos. Cada acção está inserida numa corrente que deriva das nossas ideias e se transforma pela sua efectiva materialização. Foi assim no meio de tanta azáfama que numa ida apressada à Fnac, os meus olhos se perderam na direcção da bilheteira. Nem queria acreditar, vislumbrei o nome WIM MERTENS. “Olha?!... é mesmo” Dia 17 no CCB. Depois de alguma pesquisa, fiquei a saber que estaria também em Famalicão e em Aveiro. Poupando alguns pormenores, em poucas horas asseguramos, assim muito à pressa, bilhetes para o concerto de ontem em Famalicão. Eu já tinha estado em 2001 no Coliseu e confesso que tive algum receio que o concerto de Famalicão não tivesse a magia do anterior mas todo o encanto repetiu-se.
Foi-nos apresentado o seu último trabalho “Un Respiro”. Voltando à sua essência de piano-voz. O que se pode afirmar é que este génio consegue uma simbiose que eu nunca tinha visto com o seu público. Cada nota preenche o espaço-som, difundindo-se em cada recanto da nossa alma. Cada célula atingida, roda vertiginosamente, eleva-se e brilha esplendorosamente. Sentimo-nos viver em todo o universo, conseguimos ser e observar a beleza. É certo que ele toca-nos as emoções, mexe nas vísceras, mas nunca ficamos só pela emoção, vamos além, na projecção da camada superior do córtex para concluir que é possível um salto quântico e perceber que a vida é isto: arrebatadora de beleza, fugaz mas vibrante. Talvez possa dizer que essa fugacidade explique a melancolia que sentimos, queremos prender e guardar a beleza, aprisionando-a num tempo que só existe na nossa mente e resignados com tal disparate, ficamos com aquela sensação de semi-tristeza. Saber que a beleza é uma passagem que pode ser vivida incessantemente é o grande segredo de “Respiro”, movimento e sopro divino de vida, entre força e suavidade. Dito isto só nos resta repetir…bora todos a Aveiro dia 18 !!!
alves PEDRO


OLHARES #027

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RENÉ BERTHOLO (1935-2005)

E hoje amanhecemos ainda mais tristes com a notícia de que René Bertholo nos deixara na Sexta-Feira passada.


NEVA EM MIM #010

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Coloco o CD na aparelhagem, Nitin Sawhney. A música espalha-se pela casa a um volume suave. O sol atravessa a janela iluminando o quarto com os seus raios ternurentos de final de tarde. Paro no tempo para olhar e ver o que me rodeia. Olho pela janela e observo a teia de aranha alojada entre as grades da varanda, contemplo também as pequeninas flores de jasmim, tão delicadas e frágeis, capazes de me embriagarem com o intenso perfume que entra pela janela do quarto. Seguro uma chávena de chá, que vou saboreando em pequenos tragos.
O mundo continua calmo, como sempre esteve, nós é que tornamos tudo demasiado agitado e angustiante. Olho as poucas nuvens que passam no infinito céu, e permito-me, tal como em criança, brincar com elas, atribuindo-lhes os mais diversos significados, dou por mim a sorrir. E relembro-me de como os pequenos detalhes são tão deliciosos e enchem a nossa vida de cor e sabor. E o meu peito enche-se de felicidade, cresce uma vontade imensa dentro de mim, de abrir os braços e deixar-me levar pelo vento, voando pelo mundo mágico durante um dia inteiro, e à noite, deixar-me embalar pelas ondas do mar, ouvindo o canto das sereias.
Volto para dentro. O quarto está tranquilo, envolvido por uma imensa paz. O meu bebé descansa tranquilo e sereno no seu berço, que tantas vezes embalo, beijo-o muito delicadamente para não o acordar, e aconchego-o nas suas roupinhas. Irei contar-lhe as histórias do nosso mundo mágico, onde os sonhos alimentam a alma, onde os jardins estão povoados de fadas cintilantes, e os guerreiros lutam por causas nobres, apesar de os adultos já não acreditarem nesse mundo. Irei mostrar-lhe como pode encontrar a felicidade em pequenos detalhes da vida, como uma carícia no cabelo e um olhar da pessoa amada, como o abraço de um amigo, como uma chávena de chocolate quente numa noite fria de Inverno…
O sol está a pôr-se… Tudo está tranquilo… Tudo está no seu lugar…
E o Universo envia-nos incessantemente todos os sinais de que necessitamos, para seguirmos o nosso caminho, só temos de estar atentos e nunca deixarmos de acreditar nos “instantes mágicos”.
cláudia NEVES


O POVO É BOM TIPO #017

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"FADED" »»» v. LEAL BARROS

"Faded from the Winter" »»» IRON & WINE



Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.
Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.
Eugénio de Andrade
in "Poesia"
Fundação Eugénio de Andrade
Porto, 2000
que as suas palavras sejam a nossa homenagem


OLHARES #026

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Quando decidimos por em marcha este blogue, a nossa única vontade era a de constituirmos um espaço (mesmo que virtual) onde pudessemos partilhar uns com os outros e todos com um maior número de pessoas, textos, gostos e afinidades que nos unem enquanto seres humanos e amigos, bons amigos, que somos. Nunca nenhum de nós imaginou que esta partilha fosse capaz de nos trazer tanta energia positiva. Na curta vida d'O POVO É BOM TIPO foi tanto o que já recebemos, desde as impressões sinceras das pessoas que nos lêem, às palavras gentis e carinhosas que todos os dias se dão ao trabalho de nos dedicar e às amizades e cumplicidades que se foram criando. Nem por um momento me arrependo de ter embarcado nesta aventura, porque todos os dias cresço com a partilha desinteressada que se foi criando neste e noutros espaços como este. Obrigado a todos aqueles que de alguma forma contribuem para melhorar as nossas vidas, especialmente a esta, esta, esta, esta e esta pessoas. Pela admiração, partilha desinteressada e cumplicidade intelectual que nos une, o meu muito obrigado.
v. LEAL BARROS


CONVIDADO ESPECIAL #009

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Lugar-comum
Deixo a esferográfica deslizar sob a minha mão direita para te escrever algumas palavras. E acendo um cigarro porque as palavras, etéreas, não se materializam, e por cada fumaça que puxo do cigarro é como se quisesse arrancar a palavra certa, a frase mais coerente, o parágrafo perfeito, para te dizer qualquer coisa como
- Gosto de ti
e no entanto este
- Gosto de ti
é tão pouco para o que há para dizer, e talvez seja por isso que em vez de discorrer no papel ou dizer-to nos olhos, bloqueada, fico sem nada dito. Nada feito. Nada escrito. Talvez.
Queimou-se o cigarro morto entre o indicador e o maior da mão esquerda, esmago a ponta no cinzeiro, e é então que sinto que os meus lábios tremem. Escondem um soluço, tremendo, e é nos lábios que nasce a torrente de espasmo que forçadamente quer percorrer todo o meu corpo, sacudindo-o. Num pranto envergonhado. Tremendo os lábios, porque não sabem se dizer
- Gosto de ti
será suficiente para que tu e eu própria entendamos o que há realmente entre nós, para lá do teu olhar de esguelha, por cima do jornal, e os gestos do meu embaraço pairando no silêncio da distância que nos desune.
Nada fazes. Perdes-te revolvendo o jornal nas páginas desportivas e deixaste em cima da pequena mesa da sala de estar a revista de domingo, como se a revista, de algum modo, fosse para ti, e à tua maneira, um
- Gosto de ti
imaginando-me perdida nos artigos sobre a saúde do corpo, a beleza, as receitas de culinária e os passatempos, mas, sabes, por mais que me esforce, não são essas as palavras que ouço no mais íntimo de mim. Acentua-se, na maneira como viras as páginas do jornal e no silêncio dos teus lábios herméticos, a distância que nos separa.
Sirvo-me de mais uma chávena de café, bebo-o sofregamente como se fosse um elixir qualquer que volvesse o tempo, os objectos, para que nada disto fosse assim. Acto contínuo, acendo um novo cigarro, mas o fumo repetido a esta hora da manhã pesa-me demasiado nos pulmões, pelo que duas ou três fumaças depois já o estou a esmagar no cinzeiro de vidro.
Olho para ti e quero que olhes para mim. Mas é o jornal que tu queres olhar. Estás num espaço onde me tens barrada a entrada. Se vou ter contigo,
(como se tocar-te fosse uma espécie de murmúrio ao teus ouvidos
- Gosto de ti),
já sei que me dizes que queres que te deixe em paz, que estás a ler o jornal e detestas ser interrompido, que vá passear o cão, ver se o periquito tem água e sementes, se há alguma roupa para dobrar, se o almoço já está adiantado, se o lixo está no contentor.
Assim tem sido há vinte anos. Sem filhos que os recusaste porque não és capaz, sem amigas ou amigos que me venham visitar por gosto e propósito, não aqueles que trazes de vez em quando para jantar, mas amigos meus verdadeiros, que me façam distrair daquilo que eu sou, daquilo em que me conformei em ser – a tua mulher – como se o facto de ser a tua mulher,
(tua de papel e aliança abençoada pelo deus que acreditas e que pensas ajudar o teu clube nas noites em que joga com outro clube a partida do futebol que assistes refugiado com os teus amigos e comparsas pela televisão com cabo no café mais adiante),
significasse ter de servir-te, existir para servir-te.
Maquilho-me, componho a roupa, uso os perfumes que me ofereces em todos os meus aniversários que celebrei a teu lado na mesma atitude
- Gosto de ti
para que me olhes, apesar de saber que muitas das vezes te interrogas, desconfiado, porque me maquilho e visto assim, e que sintas que a minha presença não é uma tua necessidade pontual, mas a mulher que escolheste para viver contigo e com quem devias partilhar todos os momentos.
Tudo em vão. As folhas do jornal ocupam com o seu ruído amarrotado o silêncio que afinal não preenche a casa. No sofá estás tu e o teu mundo. Eu sou mais uma peça de bibelot arrumada no pó do esquecimento.
Porque será que não estou bem, passados estes vinte anos em que afinal outro homem não revelaste ser senão este mesmo, tu mesmo, que estás enterrado desde que nos casamos nesse sofá lendo as páginas desportivas do jornal, e que me olha de soslaio como se ordenasses Não incomodes!, dobrando as folhas impressas num revoar de pássaros espantados nos teus braços? Porque será?
Infelizmente já sei o porquê, o que não imaginas. É pelo mesmo motivo que voltei a fumar, deixando-te surpreso quando me viste há dias, novamente com o vício a soprar pelos meus lábios, sempre impecavelmente pintados para ti. E tu pouco te importaste, disseste que a saúde era minha, ao passo que tu fumas mais do que eu, e daí fazes pretexto para voltares a inundar a sala, o quarto, a casa de banho com o cheiro pestilento do fumo excessivo que carregas.
O motivo. Das minhas mais recentes insónias e das minhas mais recentes fingidas dores de cabeça que te irritam e desiludem, nas parcas vezes que me procuras para outro fim que não seja dar-te de comer, dar-te de vestir, dar-te o conforto de uma casa composta. O motivo dos meus olhos borratados do rímel, o motivo de, ao fim destes anos todos, esperar-te na sala de estar, embrulhada numa manta, até altas horas da madrugada, quando dizes que é o trabalho, são os clientes, é o patrão.
O motivo encontrei-o com a mesma dedicação que sempre tive ao tratar a tua roupa suja, como de costume despojada no chão do quarto ou da casa de banho, após uma noite em que estiveste longe, porque o trabalho, dizias tu, porque os clientes, porque o patrão. Terá sido um dos teus clientes, o teu patrão quiçá, ou outro alguém do teu tão cansativo trabalho que terá deixado dentro de um dos teus bolsos um pedaço de um guardanapo de papel, entre muitos gatafunhos que não soube entender, mas onde se via nitidamente a viva flor da tinta que exibia um
- Gosto de ti ?

José Alexandre Ramos
via Canto da Boca


ESQUISSOS #023

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um dia disseste-me que havia magia no mundo e eu não acreditei. foram tempos de cegueira esses, quando me oferecias a paz e eu nem o azul recebia. depois, amor, fui rasgando as toalhas e os guardanapos do café, pintando-os com a minha caligrafia coxa, tentando que cada palavra aproximasse o meu olhar do teu. foram esquissos, ensaios para chegar a ti. hoje, rabiscar em toalhas de café não faz sentido. e o mundo amor? o mundo continuará a falar dos cascos das árvores, do riso das crianças, da ternura dos velhos, da alegria leve dos campos ao fim da tarde e da vida apaixonada das cidades. foi tudo isso, amor, foi magia que enraizaste em mim.
v. LEAL BARROS
a série "Esquissos" termina aqui


O POVO É BOM TIPO #016

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"SOMETIMES I FEEL SO SMALL" »»» v. LEAL BARROS



3.

Mas será que em vão guardamos o coração no peito, em vão que
apenas nós, mestres e discípulos esperamos? Pois quem
quereria opor-se e impedir a nossa alegria?
O fogo divino também nos impele, dia e noite,
a partir. Por isso, vem! Para que contemplemos o espaço aberto,
para que procuremos o que é nosso, por muito longe que se
encontre.
Uma coisa é certa: quer ao meio dia, quer
até à meia-noite, a todos é comum
uma medida, aplicada diferentemente a cada um,
e vai e vem assim cada um até onde pode.
Por isso à loucura exultante é grato troçar da troça,
quando de súbito se apodera do vate na noite sagrada.
Vem, pois, ao Istmo! Onde o mar alto sussurra
junto ao Parnaso e a neve rodeia de luz os rochedos délficos,
vem à terra do Olimpo, aos cumes do Citéron,
passar sobre os abetos e os vinhedos donde
se avista ao fundo Tebas e o Ismeno que rumoreja na terra de Cadmo
de onde o Deus que há-de vir se aproxima e para trás aponta.
(...)
Friedrich Hölderlin
in "O Pão e o Vinho"
trad. Maria Teresa Dias Furtado
Assírio & Alvim

a "pedido" desta menina


LEITURAS ÚLTIMAS #005

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Hermann Hesse
“A década que medeia entre os 40 e os 50 anos é para as pessoas temperamentais, para os artistas, sempre uma época crítica, de inquietação e frequente insatisfação, uma altura em que é comum haver dificuldades em lidar com a vida e com nós mesmos. Depois disso, sobrevêm tempos de acalmia. Pude experimentar isso não só em mim mesmo, como também o observei em muitos outros. Por muito bela que seja a juventude, uma época de efervescência e de combates, também o envelhecer e o amadurecimento possuem a sua beleza própria e proporcionam felicidade.

Com 50 anos, o ser humano começa a pôr de lado certas criancices como a obtenção de fama, reputação e estatuto, passando a olhar retrospectiva e desapaixonadamente a sua vida passada. Aprende a esperar, a calar-se, a escutar; ainda que porventura alguma dessas virtudes venha a ser corrompida por quaisquer debilidades ou por algumas fraquezas, nunca deixará de considerar proveitoso este processo.”
Hermann Hesse
in “O Elogio da Velhice”
Difel


Este excerto é elucidativo da sabedoria de Hermann Hesse em relação à vida e ao que é ser humano. O livro, mais do que um “Elogio da Velhice” é um elogio à própria vida e ensina-nos que só gozaremos da tranquilidade que tanto ambicionamos, se tivermos uma atitude de respeito, atenção e humildade perante os desafios que ela nos vai colocando. Hermann Hesse fala-nos sobretudo de dignidade, e do quanto deveremos estar atentos para não a deixar escapar. Talvez tenha sido um dos livros que mais me ensinou. Quando o terminei, uma voz na minha cabeça dizia-me isto: “Se não estás atento, se não abrires os olhos e o coração à vida, corres o risco de um dia te tornares um velho ácido. E não há coisa mais triste e ridícula do que um velho amargo. É a única coisa de que se pode ter pena.”
v. LEAL BARROS


PAREDES NO INFINITO #003

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A morte é o acontecimento final, mas antes de acontecer, existem muitas perdas menores pelo caminho. Se pensar um pouco no assunto, poderá facilmente ver o padrão de ganho e perda que corre pela sua vida. Enquanto estão a acontecer, as perdas são dolorosas e o ego reage numa tentativa de as agarrar. No entanto, a passagem da infância para a adolescência é simultaneamente uma perda e um ganho. Casar representa a perda do celibato e a aquisição de um companheiro. O ganho e a perda são duas faces da mesma moeda. A única coisa que nos traz um proveito absoluto é ganhar consciência que é o objecto da nossa busca.
- Nunca te ocorreu que não podes perder nada - perguntou Merlin - porque nunca tiveste nada? A única coisa que tens é a ti próprio. Esse eu pode passar algum tempo numa casa ou num emprego. Pode passar algum tempo na presença de certas coisas e ter uma determinada quantia de dinheiro, mas, com o tempo, tudo mudará. Nessa altura, a única coisa que traz é uma recordação, uma imagem, um conceito. E estes não são reais: são fruto da tua mente. Os pensamentos são como convidados: entram e saiem enquanto tu permaneces. Considera os objectos e bens do mesmo modo: vêm e vão. Quem permanece és tu.
Deepak Chopra
in "O caminho do mago"
Temas & Debates


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