PÉROLAS A PORCOS #010


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"Bords d'une Rivière" »»» Paul CÉZANNE
RAÍZES
O tempo, sempre o tempo e a sua capacidade de nos fazer reflectir obrigando-nos a repescar no nosso passado todas as pedras em que tropeçamos. Uma dessas pedras, por sinal fascinante, é a pedra da família.
Teria eu uns seis ou sete anos, quando a minha primeira professora, uma das Armindas que apareceram na minha vida e nela ocuparam um lugar de carinho e respeito, nos pediu que desenhássemos aspectos da paisagem que envolvia a pequena escola. Lembro-me de ter saído da sala, com uma tábua de desenho na mão e alguns lápis de tinta incolor que não cheguei a utilizar. Sentei-me num muro de pedra, forte, de juntas sólidas, sem qualquer fio de transparência, qualquer ténue racha que permitisse a passagem de um raio oblíquo e pousei a tábua de desenho nos joelhos admirando aquele imenso vale. Estendia-se como um manto verde que ao encostar o horizonte o vai trepando lentamente acabando por se diluir nas colinas pequenas e robustas. Os meus olhos, obcecados, engoliam essa imagem forte. As nuvens eram suaves e desenhavam sombras que viajavam num movimento tranquilo sobre aqueles seios macios, adoçados pelo vento e pela chuva durante milhares de anos. A paisagem era de tal modo forte e viva, que a multiplicidade de tons quase me levava à loucura. Eram verdes, azuis, laranjas, imigrantes do tempo que se foram fixando ao longo de anos infinitos, decomposições de um espectro natural que se multiplicava e enchia de formas todo aquele quadro. Hoje, quando penso naquela tela vampirizante, lembro-me de Cézanne, das cores distendidas sobre planos que ao envolverem a paisagem a transformam numa toalha de remendos de simplicidade e beleza difíceis de descrever.
Não consegui desenhar uma linha. Estava de tal maneira absorvido pela força daquela imagem que um simples registo pictórico inocente e desajeitado trairia toda a beleza que me limpava o peito. O cérebro imobilizava-me as mãos e simultaneamente soltava-se como um cavalo selvagem galopando pelos prados da imaginação. Viajava no tempo. Assistia a lutas de cruzados de lanças apontadas ao vento, entrava na construção daquelas casas de granito encerradas em si próprias que guardavam os segredos de outras gerações e me escondiam os vícios, as volúpias e a carne de outros mundos que eu não conheci. Ouvia o murmurar das velhas escondidas atrás de mantos pretos, tapadas, como se assim pudessem evitar os segredos de uma juventude malandra denunciada pela inocência dos seus sorrisos. Ouvia sobretudo o correr da vida naquela aldeia pacata e imaginava-me a percorrer esse cenário de mãos dadas com os meus antepassados, todas as pessoas que entraram na minha vida e que só conheci pelas vozes dos meus avós paternos.
v. LEAL BARROS


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