SEBASTIÃO


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"Children 16" »»» William ROPP

Com os cotovelos pousados no sofá rasgado, que nos tinha sido dado como uma obra de caridade, ficava vislumbrando cada pedaço de tecido nas encruzilhadas dos nós sujos. O espectáculo da matéria tinha-me mantido no silêncio inerte de qualquer gesto inútil. Somente a luz do verão me incomodava, a luz e esse calor insuportável que mantinha essas gentinhas todas fora das suas tocas. Gentes da minha espécie com suas ninhadas, numerosas como os pombos que devoravam todo aquele milho que os velhos lhes deitavam como que para se redimirem de todos os gestos altruístas que não tiveram. Finalmente a tarde começa a vencer a luz e o calor. Agora já posso voltar para a janela. Sempre preferi a lua ao sol, quando este sair, ela chegará. A lua tem luz mas sua luz é outra, posso olhá-la nos olhos, seu brilho não me ofusca. O sol impõe-se e espalha-se-nos pela casa fora, arrastando todas estas criaturas para fora dos ninhos e tentando sempre levar-me com elas e com suas crias, eu prefiro a penumbra, o silêncio e o ultimo andar deste velho prédio. A campainha interrompe este curto momento de regozijo. São tantos, que nem consigo contá-los, poderia mas cansam-me os números. “- Sebastião! este rapaz, ai este rapaz não é como os outros…Ó rapaz então não podias ter vindo com os amiguinhos. Isso até te faz mal, sempre aqui enfiado, ainda por cima com este tempo”. Interrompi minha lucidez e juntei-me a eles. Gostava de observar como eles se entretinham a fugir das suas condições de escravos e rendia-me perante o poder da ignorância, santa. Os meus treze anos poderiam em breve assassinar cobardemente a contemplação e o vazio. Teria forçosamente que me entregar, render-me às claras tardes de Junho, abdicar do último andar. Teria que descer para a praça, ir até um parque, privar-me dum gelado, correr com os outros miúdos. Queria nunca crescer, queria nunca sair do último andar do velho prédio, queria nunca brincar com os miúdos da minha idade. Sabia naquele preciso momento que tudo iria ser diferente, muito em breve arriscava-me a pertencer ao mundo da escravidão. Essa corrente que me arrastava só conseguia ser travada pelas barulhentas discussões dos meus pais. A meio da noite e dos insultos disparados como setas certeiras, voltava uma ilusão de que afinal poderia permanecer livre. Sentia que podia continuar a isolar-me perante a incompreensão mútua, a mágoa, a frustração e o tédio. Por quanto tempo, continuaria eu a resistir?
alves PEDRO


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