PÉROLAS A PORCOS #009


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Longe vão os tempos em que as pessoas, por paixão ao seu trabalho e aos seus valores se uniam, reuniam, discutiam ideias e em conjunto cresciam apresentando alternativas independentes da norma num espírito de coligação e partilha. Os movimentos artísticos do início do século XX são os exemplos por excelência desse espírito associativo em que a palavra “colectividade” fazia algum sentido. Talvez o ambiente político da época tenha sido a principal razão do surgimento desses “grupos”. A Europa, e falo no contexto europeu porque me é mais próximo e como tal o que melhor conheço, proliferava em regimes totalitários, desde as direitas fascistas e conservadoras do sul, às esquerdas comunistas do leste, e portanto, a reunião e o “grupo” nasciam como uma resistência intelectual espontânea e livre de quem não aceitava viver condicionado e previa no “grupo” uma persistência mais activa e eficaz. É certo que desses grupos nasceram muitas ortodoxias, elas próprias totalitárias e segregadoras, mas é certo também, que outros desses grupos fizeram revoluções e algumas delas de uma poesia extraordinária, onde o sangue derramado nas ruas foi substituído por flores simples de um vermelho muito vivo. Pois é, esse tempo já não existe ou existe adormecido nas páginas dos livros de história.
Em poucos anos o espírito da sociedade desviou completamente o sentido da marcha. Do colectivismo e associativismo por vezes exacerbados, percorre-se nos dias que correm, um caminho individual, para não lhe chamar autista, em que o outro é encarado como um obstáculo entre o sujeito e os seus objectivos. Hoje o mundo corre muito depressa, o tempo é escasso e quase se convenciona que do seu bom ou mau uso depende a sobrevivência. Entramos na “Era da Esperteza”. Não tenho dúvidas que se Darwin ainda estivesse entre nós, diria que, dadas as condições, o indivíduo mais apto na sociedade contemporânea é o “esperto” e não o “trabalhador”, o “inteligente”, o “sábio”, o “forte” ou o “emotivo”. A vantagem do “indivíduo esperto” em relação a todos os restantes tipos de humanos é a sua capacidade de adaptação. Improvisa sempre, o que o torna num sujeito imaginativo e com dotes de criador, o problema coloca-se quando a sua criatividade se estende ao campo dos valores e da idoneidade, que talvez não constitua problema algum, graças a proliferação incontrolável de “sujeitos espertos” que, através da sua extraordinária criatividade, fizeram um update daquilo que tínhamos como valores e idoneidade.
Os restantes indivíduos, os menos aptos, vão adormecendo embalados pela agitação dos dias apressados. Muitos deles apercebem-se dos malabarismos dos “indivíduos espertos” e talvez se divirtam com a sua estranha criatividade durante o tempo que permanecem acordados. Outros dormem tão profundamente que talvez uma vida não seja suficiente para quebrar a letargia. Outros, uma vez acordados, lembram-se de um sonho, um sonho em que havia um homem num país muito pequeno que como eles tinha acordado e se lembrava de um sonho. E no sonho desse homem havia muita gente na rua e muitas flores vermelhas, e toda essa gente estava muito feliz e unida. Então, esse homem acreditou tanto no sonho, que decidiu acordar os vizinhos e disse-lhes que eles eram aquela gente de flores vermelhas na mão. Convenceu-os a saírem à rua de mãos apertadas por entre as flores e foi então, que numa manhã de Abril, unidos, percorreram uma cidade e depois todas as outras cidades, agitando as suas flores muito vermelhas para que os habitantes do país muito pequeno acordassem. Quando os habitantes preguiçosos recuperavam do sono pediam-lhes apenas que sonhassem também.
O meu tributo ao Salgueiro Maia.

v. LEAL BARROS


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