LEITURAS ÚLTIMAS #004


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"The Clothing of the Bride" »»» Max ERNST
“Na casa do incesto existia um quarto que ninguém conseguia encontrar, um quarto sem janela, fortaleza dos seus amores, um quarto sem janela onde o espírito e o sangue se misturavam numa união sem orgasmo e sem raízes como a dos peixes. Numa promiscuidade de olhares e de palavras, encontrando-se como faíscas no espaço. Choque entre semelhantes, espalhando o seu odor de tamariz e areia, de conchas em decomposição e algas moribundas, amor-tinta de polvo, festim de venenos.
Tropeçando de quarto em quarto cheguei à sala das pinturas onde encontrei Ló acariciando os seios de sua filha enquanto atrás deles a cidade se consumia em chamas, se abria e caía ao mar. Ali onde estava sentado com a sua filha o tapete oriental era vermelho e duro, mas o tormento que os agitava exprimia-se nas imagens das rochas que abriam à sua volta, na terra rugindo debaixo dos pés, nas árvores que ardiam como tochas, no céu-fumo e tornado vermelho, tudo ruindo no prazer e no terror do seu amor. Prazer de mão de um pai no seio de sua filha, prazer medo que a atingia. Um fato tão estreitamente cingido à volta do corpo que os seus seios se erguem e aumentam sobre os dedos, enquanto a cidade se rende aos clarões e faísca sob dentes de fogo, enormes blocos de uma cidade afundando-se no horror da obscenidade, atirados ao mar com a urgência dos para sempre condenados. Nem um só grito de horror veio de Ló ou de sua filha mas da cidade em chamas, de um desejo insatisfeito de pai e filha, de irmão e irmã, de mãe e filho.
(…)
O novo Cristo declarou: nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?”
Anaïs Nin
in “A casa do incesto”
Assírio & Alvim
Não imaginam a saudade que eu tinha de comer um bife cru! Dei por mim irritado, muito irritado com o caminho quase volátil que venho trilhando ultimamente. Acho até que o meu último post já denunciava um pouco essa irritação. E sentia que o ambiente à minha volta se apresentava todo muito vegetariano, sem tempero, sem suor, suave mas sem paixão, como uma espécie de equilíbrio vazio, tranquilo, mas sem dignidade. Da irritação e da revolta tive uma necessidade absurda de procurar um livro que me voltasse a falar da terra, do sangue, da carne, que me trouxesse um cheiro de humanidade que não provava há algum tempo. Olhei a estante e imediatamente os meus olhos saltaram de encontro a Anaïs Nin. Reli partes de assentada, bebendo em cada palavra a sua loucura e a sua força. É estranho mas sinto-me mais humano.
v. LEAL BARROS


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