LEITURAS ÚLTIMAS #003


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CLARICE LISPECTOR

“Até mesmo na tragédia, pois a verdadeira tragédia está na inexorabilidade do seu inexpressivo, que é a sua identidade nua.
Às vezes – às vezes nós mesmos manifestamos o inexpressivo – em arte se faz isso, em amor de corpo também – manifestar o inexpressivo é criar. No fundo somos tão, tão felizes! Pois não há forma única de entrar em contacto com a vida, há inclusive as formas negativas! Inclusive as dolorosas, inclusive as quase impossíveis – e tudo isto, tudo isto antes de morrer, tudo isto mesmo enquanto estamos acordados! E há também às vezes a exasperação do atonal, que é de uma alegria profunda: o atonal exasperado é voo se alçando – a natureza é o atonal exasperado, foi assim que os mundos se formaram: o atonal exasperou-se.
E que se vejam as folhas, como elas são verdes e pesadas, elas se exasperam em coisa, que cegas são as folhas e que verdes elas são. E que se sinta na mão como tudo tem um peso, à mão inexpressiva o peso não escapa. Que não se acorde quem está todo ausente, quem está absorto está sentindo o peso das coisas. Uma das provas da coisa é o peso: só voa o que tem peso. E só cai – o meteorito celeste – o que tem peso.
Ou tudo isto é ainda eu estar querendo o gozo das palavras das coisas? Ou isso é ainda eu estar querendo o orgasmo da beleza extrema, do entendimento, do extremo gesto de amor?
Porque o tédio é de uma felicidade primária demais! E é por isso que me é intolerável o paraíso. E eu não quero o paraíso, tenho saudade do inferno! Não estou à altura de ficar no paraíso porque o paraíso não tem gosto humano! Tem gosto de coisa, e a coisa vital não tem gosto, tanto que sangue na boca quando eu me corto e chupo o sangue, eu me espanto porque meu próprio sangue não tem gosto humano.
E o leite materno, que é humano, o leite materno é muito antes do humano, e não tem gosto, não é nada, eu já experimentei – é como o olho esculpido de estátua que é vazio e não tem expressão, pois quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo, a pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço de ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso, e o grito.
- Ah, mão que me segura, se eu não tivesse precisado tanto de mim para formar minha vida, eu já teria tido a vida!”

Clarice Lispector

In “A Paixão segundo G.H.”
Relógio d’Água
Lisboa, 2000


Mais do que escrever sobre Clarice Lispector apetecia-me partilhar convosco este pedaço de literatura. Deve fazer uns três ou quatro anos que li este livro pela primeira vez, marcou-me mas não profundamente. Recentemente passei por ele na estante e ele chamou-me, sim porque os livros chamam-nos quando sentem que estamos prontos para poder abri-los. Acedi ao seu chamamento e percebo agora o apelo em forma de introdução feito por Clarice Lispector. Hoje sinto que este livro me marca, e desta vez profundamente. Quanto à fotografia escolhida para acompanhar o texto, apenas porque era uma mulher extremamente bonita.
v. LEAL BARROS


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