SEBASTIÃO

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"Children 16" »»» William ROPP

Com os cotovelos pousados no sofá rasgado, que nos tinha sido dado como uma obra de caridade, ficava vislumbrando cada pedaço de tecido nas encruzilhadas dos nós sujos. O espectáculo da matéria tinha-me mantido no silêncio inerte de qualquer gesto inútil. Somente a luz do verão me incomodava, a luz e esse calor insuportável que mantinha essas gentinhas todas fora das suas tocas. Gentes da minha espécie com suas ninhadas, numerosas como os pombos que devoravam todo aquele milho que os velhos lhes deitavam como que para se redimirem de todos os gestos altruístas que não tiveram. Finalmente a tarde começa a vencer a luz e o calor. Agora já posso voltar para a janela. Sempre preferi a lua ao sol, quando este sair, ela chegará. A lua tem luz mas sua luz é outra, posso olhá-la nos olhos, seu brilho não me ofusca. O sol impõe-se e espalha-se-nos pela casa fora, arrastando todas estas criaturas para fora dos ninhos e tentando sempre levar-me com elas e com suas crias, eu prefiro a penumbra, o silêncio e o ultimo andar deste velho prédio. A campainha interrompe este curto momento de regozijo. São tantos, que nem consigo contá-los, poderia mas cansam-me os números. “- Sebastião! este rapaz, ai este rapaz não é como os outros…Ó rapaz então não podias ter vindo com os amiguinhos. Isso até te faz mal, sempre aqui enfiado, ainda por cima com este tempo”. Interrompi minha lucidez e juntei-me a eles. Gostava de observar como eles se entretinham a fugir das suas condições de escravos e rendia-me perante o poder da ignorância, santa. Os meus treze anos poderiam em breve assassinar cobardemente a contemplação e o vazio. Teria forçosamente que me entregar, render-me às claras tardes de Junho, abdicar do último andar. Teria que descer para a praça, ir até um parque, privar-me dum gelado, correr com os outros miúdos. Queria nunca crescer, queria nunca sair do último andar do velho prédio, queria nunca brincar com os miúdos da minha idade. Sabia naquele preciso momento que tudo iria ser diferente, muito em breve arriscava-me a pertencer ao mundo da escravidão. Essa corrente que me arrastava só conseguia ser travada pelas barulhentas discussões dos meus pais. A meio da noite e dos insultos disparados como setas certeiras, voltava uma ilusão de que afinal poderia permanecer livre. Sentia que podia continuar a isolar-me perante a incompreensão mútua, a mágoa, a frustração e o tédio. Por quanto tempo, continuaria eu a resistir?
alves PEDRO


LEITURAS ÚLTIMAS #004

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"The Clothing of the Bride" »»» Max ERNST
“Na casa do incesto existia um quarto que ninguém conseguia encontrar, um quarto sem janela, fortaleza dos seus amores, um quarto sem janela onde o espírito e o sangue se misturavam numa união sem orgasmo e sem raízes como a dos peixes. Numa promiscuidade de olhares e de palavras, encontrando-se como faíscas no espaço. Choque entre semelhantes, espalhando o seu odor de tamariz e areia, de conchas em decomposição e algas moribundas, amor-tinta de polvo, festim de venenos.
Tropeçando de quarto em quarto cheguei à sala das pinturas onde encontrei Ló acariciando os seios de sua filha enquanto atrás deles a cidade se consumia em chamas, se abria e caía ao mar. Ali onde estava sentado com a sua filha o tapete oriental era vermelho e duro, mas o tormento que os agitava exprimia-se nas imagens das rochas que abriam à sua volta, na terra rugindo debaixo dos pés, nas árvores que ardiam como tochas, no céu-fumo e tornado vermelho, tudo ruindo no prazer e no terror do seu amor. Prazer de mão de um pai no seio de sua filha, prazer medo que a atingia. Um fato tão estreitamente cingido à volta do corpo que os seus seios se erguem e aumentam sobre os dedos, enquanto a cidade se rende aos clarões e faísca sob dentes de fogo, enormes blocos de uma cidade afundando-se no horror da obscenidade, atirados ao mar com a urgência dos para sempre condenados. Nem um só grito de horror veio de Ló ou de sua filha mas da cidade em chamas, de um desejo insatisfeito de pai e filha, de irmão e irmã, de mãe e filho.
(…)
O novo Cristo declarou: nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?”
Anaïs Nin
in “A casa do incesto”
Assírio & Alvim
Não imaginam a saudade que eu tinha de comer um bife cru! Dei por mim irritado, muito irritado com o caminho quase volátil que venho trilhando ultimamente. Acho até que o meu último post já denunciava um pouco essa irritação. E sentia que o ambiente à minha volta se apresentava todo muito vegetariano, sem tempero, sem suor, suave mas sem paixão, como uma espécie de equilíbrio vazio, tranquilo, mas sem dignidade. Da irritação e da revolta tive uma necessidade absurda de procurar um livro que me voltasse a falar da terra, do sangue, da carne, que me trouxesse um cheiro de humanidade que não provava há algum tempo. Olhei a estante e imediatamente os meus olhos saltaram de encontro a Anaïs Nin. Reli partes de assentada, bebendo em cada palavra a sua loucura e a sua força. É estranho mas sinto-me mais humano.
v. LEAL BARROS


CURTAS #010

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Olhamos o céu e prevemos nele o infinito onde nos vamos fundir. E no silêncio da alma vai-se construindo uma força de propulsão que nos diz que pelo éter é o caminho. Então percorremos os dias no perscrutar da luz e da palavra. E no momento dessa poesia sublime e superior esquecemo-nos das raízes que nos prendem à terra, e voltamos a perguntar onde mora a carne, onde corre o sangue, onde guardam o cheiro da terra? É nesta mistura de terra e ar que nos consumimos. E se na luz mora a libertação, na carne mora o mais essencial e primitivo dos prazeres. Talvez seja esse o eterno ciúme de deus.
v. LEAL BARROS


ESQUISSOS #019

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ensina-me a saber esperar.


v. LEAL BARROS


O POVO É BOM TIPO #013

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"ADAGIO" »»» v. LEAL BARROS
Mais um diálogo entre a Imagem e a Música.


Mahler - Adagietto (5ª Sinfonia)




DO AMOR IV

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão
in "As Fábulas"
quasi edições


OLHARES #019

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"A POESIA ESTÁ NA RUA"


CRÓNACA DI VENEZIA #004

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"ESTRANHA" »»» anuXca
Estranha
Sinto-me estranha a este silêncio
Entre o meu ouvido…e o outro…
E quando te percorro o olhar
No devaneio obtuso de um sorriso rasgado,
Transcrevo-me num firmamento
Mutilado de estrelas…
Sinto-me estranha a esta ausência
Entre a minha mão…e a outra
E quando te invado a pele
Num instante perdido de odores
Perco-me no momento que o Tempo não fala…
Sinto-me estranha de ti
Entre a minha essência….e a outra
Quando me escrevo em palavras
Que te pintam o sorriso da alma…
Sinto…sinto-me estranha de vidas
Entre o meu corpo….e o outro…que é teu
Quando do sargaço o Mar te canta
E o Mundo te cheira para lá dos Homens….

anuXca


ESQUISSOS #018

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perguntas-me porque já não te falo de mim. amor, quando entendemos a beleza do mundo, o sofrimento abandona-nos levando debaixo do braço o caderno negro do nosso egoísmo. não te inquietes, no dia em que te sentares junto daquela oliveira, escuta-a com muita atenção, talvez ela te conte algo sobre mim.
v. LEAL BARROS


COMUNICADO #013

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O POVO É BOM TIPO comunica que basta um click na banda do canto superior direito da página para ajudar. Obrigado e passem palavra.


NEVA EM MIM #007

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Olho-me ao espelho. Rodo a minha cara de um lado para o outro, sem desviar os olhos, dos meus próprios olhos.
Tenho a minha cara manchada, molhada das lágrimas que escorrem caindo no chão, os olhos inchados.
Já repararam como ficamos quando choramos? Vislumbro-me no espelho. As lágrimas desfocam a minha visão.
Vejo-me desfocada, desfigurada. Já não sei porque choro. Mas não me consigo desprender da imagem desfocada do espelho. Movo-me para a frente e para trás que nem os movimentos dos meninos autistas. Não me consigo desprender da imagem que vejo no espelho. Uma mulher que chora, que se move para a frente e para trás. Quem é aquela mulher que chora ali? Porque chora ela? Não sou eu, não sou eu! De quem é aquela cara, aquelas braços, aquele cabelo? Como a vêm os outros? Será que percepcionam aquela mulher, da mesma forma que eu a percepciono?
Não me reconheço em mim...
Ouço a música... Já é ela que me guia, Agarrou a minha mente.
E a mulher do espelho, não tira os olhos dos meus olhos. Não me consigo desprender...
Ninguém toma conta de nós...
Será? Andaremos mesmo à sorte?
O nevoeiro é muito denso...
cláudia NEVES


CONVIDADO ESPECIAL #006

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Liberdade é deixar tudo para trás e seguir o caminho que se pensa mais correcto.
N.R.
via is it any wonder?


LEITURAS ÚLTIMAS #003

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CLARICE LISPECTOR

“Até mesmo na tragédia, pois a verdadeira tragédia está na inexorabilidade do seu inexpressivo, que é a sua identidade nua.
Às vezes – às vezes nós mesmos manifestamos o inexpressivo – em arte se faz isso, em amor de corpo também – manifestar o inexpressivo é criar. No fundo somos tão, tão felizes! Pois não há forma única de entrar em contacto com a vida, há inclusive as formas negativas! Inclusive as dolorosas, inclusive as quase impossíveis – e tudo isto, tudo isto antes de morrer, tudo isto mesmo enquanto estamos acordados! E há também às vezes a exasperação do atonal, que é de uma alegria profunda: o atonal exasperado é voo se alçando – a natureza é o atonal exasperado, foi assim que os mundos se formaram: o atonal exasperou-se.
E que se vejam as folhas, como elas são verdes e pesadas, elas se exasperam em coisa, que cegas são as folhas e que verdes elas são. E que se sinta na mão como tudo tem um peso, à mão inexpressiva o peso não escapa. Que não se acorde quem está todo ausente, quem está absorto está sentindo o peso das coisas. Uma das provas da coisa é o peso: só voa o que tem peso. E só cai – o meteorito celeste – o que tem peso.
Ou tudo isto é ainda eu estar querendo o gozo das palavras das coisas? Ou isso é ainda eu estar querendo o orgasmo da beleza extrema, do entendimento, do extremo gesto de amor?
Porque o tédio é de uma felicidade primária demais! E é por isso que me é intolerável o paraíso. E eu não quero o paraíso, tenho saudade do inferno! Não estou à altura de ficar no paraíso porque o paraíso não tem gosto humano! Tem gosto de coisa, e a coisa vital não tem gosto, tanto que sangue na boca quando eu me corto e chupo o sangue, eu me espanto porque meu próprio sangue não tem gosto humano.
E o leite materno, que é humano, o leite materno é muito antes do humano, e não tem gosto, não é nada, eu já experimentei – é como o olho esculpido de estátua que é vazio e não tem expressão, pois quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo, a pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço de ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso, e o grito.
- Ah, mão que me segura, se eu não tivesse precisado tanto de mim para formar minha vida, eu já teria tido a vida!”

Clarice Lispector

In “A Paixão segundo G.H.”
Relógio d’Água
Lisboa, 2000


Mais do que escrever sobre Clarice Lispector apetecia-me partilhar convosco este pedaço de literatura. Deve fazer uns três ou quatro anos que li este livro pela primeira vez, marcou-me mas não profundamente. Recentemente passei por ele na estante e ele chamou-me, sim porque os livros chamam-nos quando sentem que estamos prontos para poder abri-los. Acedi ao seu chamamento e percebo agora o apelo em forma de introdução feito por Clarice Lispector. Hoje sinto que este livro me marca, e desta vez profundamente. Quanto à fotografia escolhida para acompanhar o texto, apenas porque era uma mulher extremamente bonita.
v. LEAL BARROS


OLHARES #018

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Cá vai mais um post com humor: leiam a primeira página dos jornais de amanhã. Mas anda tudo surdo ou quê? Ou é de mim, ou esta gente não ouve o mundo. Bem, resta-me a consolação da indignação.

v. LEAL BARROS


OLHARES #017

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Adorava ser cardeal. Apenas para ter a oportunidade de estar tantas horas na capela Sistina em transe com aqueles tectos.
v. LEAL BARROS


ARCHITECTVRA #002

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Uma Pedra no charco
A Casa da Música foi inaugurada e é o tema de café no momento. Há os mais conservadores que desprezam a sua arquitectura e acrescentam todos os problemas inerentes ao custo da obra, há os mais irreverentes, seduzidos pela novidade do equipamento, há quem reconheça qualidade no edifício e questione se a programação a decorrer de ora em diante estará à altura do investimento, há a oposição dos “tectónicos” à arquitectura de Rem Koolhaas e o fascínio dos “experimentalistas” por verem edificada uma obra destas características em Portugal. Enfim toda a gente tem a sua opinião, que mais ou menos bem fundamentada, alarga a discussão sobre um edifício e sobre a arquitectura a toda a população e não apenas aos arquitectos que tradicionalmente debatem estes assuntos. Sentirmos que um edifício permite uma discussão sobre a arquitectura a este nível é desde já um acontecimento extraordinário, sinal de que a arquitectura realmente diz respeito às pessoas, ao utilizador comum, e não apenas a uma classe.
Concorde-se ou não com o percurso arquitectónico de Rem Koolhaas, há que admitir que este edifício realmente é de uma qualidade extraordinária, mas não é o único. Vejamos: apesar da sujeição do OMA ao denominado “star system” e da comercialidade dos seus projectos mais recentes, e refiro-me aos edifícios da CCTV na China que mais parecem um tratado de estatística ou economia do que arquitectura, Rem Koolhaas é o autor de uma das obras que considero mais interessantes do período Pós-Modernista, a Villa dall’Ava em Paris. Este edifício é a materialização de uma reflexão profunda sobre o Modernismo enquanto movimento, numa actualização inteligente e crítica de muitos dos seus princípios. Salvo dois ou três arquitectos de excepção, não me lembro de nenhum que tenha percebido e revisitado a arquitectura Modernista de forma tão pertinente e profundamente inteligente. Alguns arquitectos esquecem-se também do quanto o utópico “delirious new york” contribuiu e contribui para o debate sobre a cidade. Bem sei que Koolhaas defende pontos de vista bastante discutíveis mas também Mies van der Rohe os defendeu quando desenhou o Glass Skyscraper em 1921 e mais tarde, em 1957, os materializou no Seagram Building.
A Casa da Música é um edifício extraordinário a todos os níveis, desde o seu conceito de edifício plural, aberto a todos, e que se traduz na sua espacialidade, passando pela organização do programa, o estudo de luz, a forma e os materiais aplicados, até à sua relação com envolvente que foi estudada ao mínimo pormenor (experimentem um dia visitar a Casa da Música e em vez de optarem pelo caminho mais directo, o da Praça Mouzinho de Albuquerque, façam um passeio pela envolvente e perceberão o que escrevo em relação à implantação do edifício). Se existe alguma crítica menos positiva a fazer ao OMA será a opção de programa que levou à exclusão dos espectáculos de Ópera na Casa da Música, já que nenhuma das salas possui fosso de orquestra e cena.
Dito isto, talvez seja de louvar a percepção de Camões em relação a um dos traços do povo português, o medo do novo e do diferente. O Velho do Restelo continua vivo em pleno séc. XXI. Construir um edifício com tal carga iconográfica não é tarefa para todos arquitectos, o Rem Koolhaas fê-lo com mestria. É caso para dizer que desta vez Deus deu nozes a quem tinha dentes.
v. LEAL BARROS


NEVA EM MIM #006

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Ouço a tua voz... Sofia dizes-me tu... Minha Sofia...
Ouço a tua voz, que chama por mim.
Tento desprender-me do meu corpo para ir ao teu encontro....
Meu amor...
Mergulho na minha alma. Mergulho à velocidade da luz, para o fundo, para trás em busca da sensação original.
Fecho os olhos e sinto a tua mão que me acaricia, como os suaves raios de sol me acariciam, antes de mergulharem no frio e silêncio do mar, aquela sepultura onde nenhum som penetra; mas eu viajo mais profundamente, até ao lugar da alma onde este momento ficou guardado.
E por fracções de segundos, não é a lembrança da tua mão que tenho, não é a lembrança do teu beijo que sinto.
Por fracções de segundos agarro a sensação original e estás aqui...
Amor...
cláudia NEVES


OLHARES #016

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A música que ouvem induz um sentido à imagem em baixo. A imagem não pretente ser a música e, por certo, que a música não pretenderá ser a imagem. As duas tocam-se num ponto qualquer e quando as ouço ou as olho percebo o que significam.







Brahms - Scherzo in C minor
v. LEAL BARROS


O POVO É BOM TIPO #012

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"SCHERZO MODERATO - CANTABILE" »»» v. LEAL BARROS


OLHARES #015

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A idade conta para que nos levem a sério. E cara de mau também. Disseram-me isso.
v. LEAL BARROS


PÉROLAS A PORCOS #009

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Longe vão os tempos em que as pessoas, por paixão ao seu trabalho e aos seus valores se uniam, reuniam, discutiam ideias e em conjunto cresciam apresentando alternativas independentes da norma num espírito de coligação e partilha. Os movimentos artísticos do início do século XX são os exemplos por excelência desse espírito associativo em que a palavra “colectividade” fazia algum sentido. Talvez o ambiente político da época tenha sido a principal razão do surgimento desses “grupos”. A Europa, e falo no contexto europeu porque me é mais próximo e como tal o que melhor conheço, proliferava em regimes totalitários, desde as direitas fascistas e conservadoras do sul, às esquerdas comunistas do leste, e portanto, a reunião e o “grupo” nasciam como uma resistência intelectual espontânea e livre de quem não aceitava viver condicionado e previa no “grupo” uma persistência mais activa e eficaz. É certo que desses grupos nasceram muitas ortodoxias, elas próprias totalitárias e segregadoras, mas é certo também, que outros desses grupos fizeram revoluções e algumas delas de uma poesia extraordinária, onde o sangue derramado nas ruas foi substituído por flores simples de um vermelho muito vivo. Pois é, esse tempo já não existe ou existe adormecido nas páginas dos livros de história.
Em poucos anos o espírito da sociedade desviou completamente o sentido da marcha. Do colectivismo e associativismo por vezes exacerbados, percorre-se nos dias que correm, um caminho individual, para não lhe chamar autista, em que o outro é encarado como um obstáculo entre o sujeito e os seus objectivos. Hoje o mundo corre muito depressa, o tempo é escasso e quase se convenciona que do seu bom ou mau uso depende a sobrevivência. Entramos na “Era da Esperteza”. Não tenho dúvidas que se Darwin ainda estivesse entre nós, diria que, dadas as condições, o indivíduo mais apto na sociedade contemporânea é o “esperto” e não o “trabalhador”, o “inteligente”, o “sábio”, o “forte” ou o “emotivo”. A vantagem do “indivíduo esperto” em relação a todos os restantes tipos de humanos é a sua capacidade de adaptação. Improvisa sempre, o que o torna num sujeito imaginativo e com dotes de criador, o problema coloca-se quando a sua criatividade se estende ao campo dos valores e da idoneidade, que talvez não constitua problema algum, graças a proliferação incontrolável de “sujeitos espertos” que, através da sua extraordinária criatividade, fizeram um update daquilo que tínhamos como valores e idoneidade.
Os restantes indivíduos, os menos aptos, vão adormecendo embalados pela agitação dos dias apressados. Muitos deles apercebem-se dos malabarismos dos “indivíduos espertos” e talvez se divirtam com a sua estranha criatividade durante o tempo que permanecem acordados. Outros dormem tão profundamente que talvez uma vida não seja suficiente para quebrar a letargia. Outros, uma vez acordados, lembram-se de um sonho, um sonho em que havia um homem num país muito pequeno que como eles tinha acordado e se lembrava de um sonho. E no sonho desse homem havia muita gente na rua e muitas flores vermelhas, e toda essa gente estava muito feliz e unida. Então, esse homem acreditou tanto no sonho, que decidiu acordar os vizinhos e disse-lhes que eles eram aquela gente de flores vermelhas na mão. Convenceu-os a saírem à rua de mãos apertadas por entre as flores e foi então, que numa manhã de Abril, unidos, percorreram uma cidade e depois todas as outras cidades, agitando as suas flores muito vermelhas para que os habitantes do país muito pequeno acordassem. Quando os habitantes preguiçosos recuperavam do sono pediam-lhes apenas que sonhassem também.
O meu tributo ao Salgueiro Maia.

v. LEAL BARROS


CONVIDADO ESPECIAL #005

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"EU" »»» FERNANDO LEMOS

A palavra perdida


Se nos filiarmos no completo desregramento dos sentidos, como sabiamente lhe chamou Rimbaud, impulsionado pelo seu grande génio ao absoluto, à consciência universal, e que eu prefiro apelidar de Despersonalização, podemos chegar ao conhecimento da palavra perdida, a palavra original, a palavra imanente que cria por si mesma. Para aí chegar o indivíduo tem de trilhar um longo e árduo caminho, a que Jung chamava processo de Individuação, abstraindo-se das suas máscaras, do seu Ego imediatista e contingente, religando-se ao inconsciente obliterado na profusa dispersão espacio-temporal da matéria, da densidade existencial. O silêncio é o palco por excelência dessa subtil transmutação da palavra, recolocando-nos no centro do universo, mais livres e reais. É no silêncio que entrevemos toda a luminosidade verbal inscrita em nós e resgatámos o significante do significado, o arquétipo do símbolo. É no silêncio que apreendemos toda a rutila substância que nos anima intimamente, e nos distanciámos da aparente descontinuidade do Ser. Almejada então essa efervescente volição dos sentidos, essa deserção intuitiva dos fenómenos, deixando o mundo suspenso, em expectativa, advir-nos-á consciente ou inconscientemente o conhecimento da palavra perdida... O espírito insuflado no texto e que o preenche totalmente de vida, habitando-o como uma chama velada, ardendo solitária, intemporal e secreta no recôndito espaço vazio.
Vasco Macieira
via O Santuário do Poeta


ESQUISSOS #017

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sabes o que temo amor? temo o abrir do mar no segundo livro, temo o anjo do semblante caído, temo o olhar triste da criança, temo a força da terra, temo as horas que me roubam de ti. não temo amor, não temo a maldade dos homens, o espinho da rosa mais bela, o fim do sol, não temo o escárnio dos velhos, o olhar do diabo. não temo porque os mato sorrindo o teu corpo.

v. LEAL BARROS



a lua partida ao meio


olha a lua partida ao meio
de tão baixinha que está
quase leva as copas das árvores
e o cabelo dos homens altos.
se eu fosse muito guloso
comia esta lua em forma de queijo.
olha a nuvem, a nuvem branca
quer tapar o nosso queijo
nuvem gorda e sem vergonha
invejosa da luz da lua.
tu já viu que esta noite não tem vento?
olha a lua partida ao meio
se eu pudesse sentava nela
e ficava espiando a terra
e me via olhando ela!
Maria João
in "Mumadji"
Maria João & Mário Laginha
Universal


OLHARES #014

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Não sei se já leram isto... no mínimo risível. Só em Portugal mesmo!

v. LEAL BARROS


PÉROLAS A PORCOS #008

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"INVASION" »»» JOSEF KOUDELKA
Invasão: Acto ou efeito de invadir (…)”;
Invadir: 1. Entrar bruscamente, irromper; 2. Penetrar pela força e em grande número num país e ocupá-lo; 3. Espalhar em ou sobre alguma coisa; 4. Ganhar o espírito de alguém; 5. Monopolizar alguém ou o seu tempo.”
[i]

Em Agosto de 1968 Josef Koudelka, fotógrafo checo, registou com a sua objectiva a invasão de Praga pelas tropas do extinto Pacto de Varsóvia. Ao recuarmos na história até ao momento preciso em que Koudelka congelou esta cena, apercebemo-nos da importância e da simbologia que uma fracção de segundo possui e como uma parcela tão curta de Tempo poderá dominar ou condicionar o próprio Tempo. Ora vejamos, Praga acabava de despertar da sua Primavera e ainda se sentia no ar o cheiro democrático das políticas reformistas de Dubcek, o povo, estalinizado desde o fim da Segunda Grande Guerra, redescobria o significado da Liberdade, entusiasmado pela rebeldia dos estudantes parisienses e pela utopia exalada nas flores e nos colares de missangas da juventude norte-americana, o mundo ocidental acreditava que o exemplo dos checos derrubaria o Muro mais cedo do que o previsto, a esperança reinava nas ruas de Praga e alastrava-se como um eco a todo o bloco ocidental. Tanta vontade, tanta esperança, tantos sonhos arruinados no preciso momento em que Koudelka dispara o obturador da sua lente, talvez ele próprio a mesma imagem indignada e revoltada do rapaz que “recebe” os soldados russos, um reflexo consternado no qual “the photographer engages us with a symbolic interval of his resistence as a fighter on behalf of the Dubcek liberalization” como faz crer Max Kozloff.
[ii]
Se buscarmos uma interpretação política desta imagem retiraremos dela uma quantidade de significados, que vão desde a anulação de valores como a identidade e a liberdade de um povo que é ocupado militarmente por outro, mais poderoso, e cujas consequências se manifestam de modo quase irreversível durante o período de domínio e de ocupação; questionaremos se a identidade ideológica das personagens que a compõem corresponde à identidade política das facções que representam (acreditamos na revolta e na consternação do rapaz checo – o invadido – mas a mesma crença não será partilhada em relação ao soldado russo – o invasor – sentado na traseira do tanque de guerra, que parece executar uma ordem da qual não partilha acordo); questionaremos por fim a importância de momentos como o da fotografia de Koudelka, capazes de direccionar a História num ou noutro sentido como que perguntando: se a Primavera de Praga tivesse vingado, não teria o Muro de Berlim caído mais cedo e onde estaríamos nós agora, se o caminho percorrido pela humanidade tivesse atalhado o Tempo em Agosto de 1968?
A imagem de Koudelka é passível de todas as interpretações políticas descritas, bem como doutras deixadas para segundo plano deliberadamente. Muito provavelmente esta imagem atinge hoje uma conotação iconográfica e, partindo do pressuposto que estamos perante um ícone, ela não só simboliza um momento histórico específico – a invasão de Praga pelas tropas soviéticas – como todas as outras invasões militares, ou mesmo, a INVASÃO como acto, em que algo ou alguém exerce poder sobre outro que não o consente ou aceita. Como ícone, a imagem atinge “ the feeling of strangeness that overcomes the actor before the camera, as Pirandello describes it, is basically of the same kind as the estrangement felt before one’s own image in the mirror”.
[iii] Podendo esta imagem reflectida ser transportada, separada do local onde foi registada, resta-lhe, como afirma W. Benjamim, a exibição perante o público, que reconhecerá não apenas o significado histórico que ela acondiciona como legitimamente lhe atribuirá um significado mais amplo e intimamente ligado ás suas próprias questões existenciais e filosóficas. Quer-se com isto dizer que, independentemente do conhecimento histórico do observador sobre o acontecimento decorrente da imagem, ele reconhece nela um significado – A INVASÃO, partilha a mesma consternação e a mesma raiva do INVADIDO, e sente também a agressão e a violação do INVASOR. A imagem de Koudelka não representa só um acontecimento longínquo lá nos late sixties, ela confronta o observador com um acto que ele reconhece da sua rotina quotidiana – o acto de ser invadido, a sensação de que alguém lhe “ganhou o espírito”.[iv]
É, portanto sobre a Invasão enquanto conceito que nos fala a imagem de Koudelka. Fala-nos sobre o “triunfo da natureza mais baixa sobre a mais alta (…) da tirania do fraco sobre o forte” que Oscar Wilde refere numa das suas peças “como sendo a única tirania que perdura”.
[v] A Invasão como o exercício deliberado do poder de um sobre o outro, sem permissão ou consentimento - a imposição de material bélico sobre uma nação ou, a simples manipulação psicológica de um ser humano, na qual o Invasor detém uma posição de conhecimento e domínio sobre os medos, as fobias e as inseguranças do Invadido e de forma deliberada os usa para diminuir o outro na sua personalidade e no seu carácter. É a imagem do triunfo da tirania sobre a liberdade, e que só pode ser detida pelo Invadido, uma vez o Invasor, conhecedor do poder que detém, dificilmente se desprende dele, pelo menos enquanto se mantém conhecedor daquilo que considera frágil no outro. Para aniquilar a Invasão, o Invadido tem três alternativas possíveis: tornar-se ele próprio num Invasor, num Resistente ou num Exilado.
Tornando-se num Invasor, aprende a jogar com as mesmas regras, ou seja, inventa-as consoante a necessidade ou a conveniência, golpeando e sendo golpeado segundo o maior ou menor grau de distracção do outro. Talvez seja o percurso mais penoso e depende sempre do desequilíbrio de uma das partes, começando o jogo sempre no prato mais baixo da balança para o Invadido, visto ter sido ele o primeiro a ser dominado.
O Resistente, combate a Invasão de forma heróica e altruísta. Sabe que o jogo é sempre desigual mas o seu estoicismo acaba sempre por demover o Invasor, se não mais, apenas pelo cansaço.
O Exílio é a atitude dos homens livres, depende exclusivamente das decisões por eles tomadas assumindo que a sua força é suficiente para continuar o caminho. Ao afastarem-se do seu país, da sua terra ou de si próprios (como até então se conheciam) optam pelo caminho duro da solidão e arriscam-se a carregar consigo a eterna saudade da proveniência. Apesar de tudo escolhem sempre, e por escolherem são terrivelmente livres. “Freedom of exile is of that lofty sort, though it is imposed by circumstances and, therefore, deprived of bathos. A brief formula may encapsule the outcome of the struggle with our own weakness: exile destroys, but if it fails to destroy you, it makes you stronger”
[vi]. Sabemos que Josef Koudelka foi um Exilado. Talvez o rapaz da fotografia tenha sido um Resistente. Optemos sempre em LIBERDADE.
_________________________

[i] Nova Enciclopédia Larousse, vol. 13, págs. 3837 e 3838
[ii] KOZLOFF, Max; “Lone visions, Crowded Frames – Koudelka’s Theater of Exile”
[iii] BENJAMIN, Walter; “The work of Art in the Age of Mechanical Reproduction”, cap. X
[iv] Nova Enciclopédia Larousse, vol. 13, págs. 3837
[v] WILDE, Óscar; “De Profundis”, pág. 18
[vi] MILOSZ, Czeslaw; “Exiles – On Exile”
v. LEAL BARROS


OLHARES #013

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Não me perguntem porquê mas tenho andado com uma vontade incontrolável de ouvir esta música. Desde 1996 que é esta perseguição e por mais que a afaste dos meus ouvidos ela volta sempre mais forte. Talvez seja já uma parte de mim.
v. LEAL BARROS



O POVO É BOM TIPO #011

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"TALVEZ EU SEJA ESTA FOTOGRAFIA" »»» v. LEAL BARROS


OLHARES #012

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A Beatriz escreveu este texto maravilhoso no poesis pública. Em forma de comentário eu escrevi isto:
o homem de branco talvez tivesse sido mais livre se não houvesse uma estrutura a encadeá-lo. apesar disso e encadeado que estava conseguiu romper alguns elos, não todos, em direcção à vida do meio. espalhou a paz pelo mundo e pediu desculpa pelos erros da estrutura. o homem de branco só não conseguiu transformar a estrutura em amor como Deus queria e agora, que Deus disfruta da companhia que nos foi roubada, a estrutura, que ainda não aprendeu a amar, revolve-se, entra debaixo do tecto mais lindo do mundo para renovar o reinado. que deus não se distraia em demasia contemplando o sorriso terno do homem de branco e rasgue com amor a obra do grande arquitecto pousando sobre a estrutura um raio de lucidez e esperança.
v. LEAL BARROS


NEVA EM MIM #005

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Este mundo assusta-me. Não tanto o mundo. Mas a grelha de pensamento colectivo que arrasta a maioria das pessoas, como se pertencessem a um rebanho. Nenhum cordeiro ousa ser diferente. As pessoas têm medo de ser elas próprias, têm medo de seguir os seus próprios pensamentos. Porquê o medo de arriscar? Que medo é este de quebrar a rotina a que estamos presos e que não nos deixa satisfeitos? Porquê ficarmos presos nos nossos rituais diários?
Há o medo de dar um passo diferente, medo de escutar o coração, calamos o coração a todo o custo, tentamos racionar tudo! E quando alguém sai do rebanho é automaticamente catalogado, como escandaloso, ou louco, e a multidão sente-se indignada, sente-se chocada, mas, cá para mim, bem no fundo, sentem inveja! Porque não conseguem ser elas próprias, não conseguem ser espontâneas, estar à vontade, não ter medo do diferente. Chamam louco ao vizinho muito bem sucedido profissionalmente, que vendeu tudo o que tinha, largou tudo e foi viver para o Tibete, chamam-no louco, mas bem no fundo sentem inveja porque sabem, que na sua vida nunca vão ter coragem para fazer nada arriscado, para dar um passo diferente e esperar que o inesperado aconteça. Sabem que nas suas vidas, nada de diferente acontecerá, pois elas jamais vão arriscar alguma coisa diferente. Sabem que não vão ter a coragem de seguir os seus pensamentos.
E mesmo quando não queremos, damo-nos conta, que estamos a ser arrastados por todos este padrões, pela multidão negra que nos tenta contagiar e prender, e o cansaço apodera-se de nós, do nosso corpo, da nossa alma...
Mas uma coisa eu sei, que quando as oportunidades surgem, eu não tenho medo de correr riscos, de seguir o meu pensamento, o meu coração, e só assim, dou oportunidade para que o inesperado aconteça.
E são estes momentos, que dão cor à nossa vida. Quando largamos o pensamento colectivo, os padrões de pensamento, quando arrancamos todas as correntes que nos prendem, e saltamos em queda livre de um avião a kilometros de altura. A massa colectiva vai dizer que é perigoso, que pode acontecer algo de terrivel. Mas nós damos o passo e sentimos-nos vivos.
E se um para- quedas não abrisse por qualquer razão, tínhamos sempre o suplente, que é praticamente impossível não abrir também.
E afinal, o que é que de tão terrível poderia acontecer?
Nada.
Mas por vezes é o desanimo que nos guia, o cansaço, o vento parece que trouxe a areia para nos tapar os olhos e não sabemos muito bem por onde andamos... Não sabemos bem o que dizemos, o que pensamos, o que escrevemos... Deambulamos de um lado para o outro, já fora do rebanho, esperando ver a oportunidade de nos lançarmos em queda livre...
Temos de clarificar o pensamento e não ter medo de seguir em frente, não ter medo de não pertencer ao numeroso rebanho que nos tenta contagiar.
Muitos obstáculos vão aparecer no nosso caminho, mas não devemos nunca desistir, pois são estes obstáculos que nos fazem crescer, que fazem com que depois tudo tenha mais sabor, mais valor.
Um viva à espontaneidade, à vida, ao amor!
cláudia NEVES


COMUNICADO #012

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O POVO É BOM TIPO confessa que a brincadeira de 1 de Abril foi bastante ingénua.


COMUNICADO #011

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O POVO É BOM TIPO informa que a partir de hoje deixará de existir. Após uma reunião da População, chegou-se à conclusão que nenhum dos habitantes tem disponibilidade para continuar a colaborar neste blog, facto que deve ter sido notado pelos amigos leitores, a ver pela inércia deste blogue na última semana.


O POVO tem pena que assim seja. Durante o tempo em que permaneceu on-line, criou afinidades, fez amigos, ganhou cúmplices que simpaticamente comentaram as postas de pescada que iam sendo lançadas nesta rede, enfim... mas tudo acaba por morrer!


O Povo É Bom Tipo agredece a todos os amigos que o visitaram... até sempre!

Em despedida,


O POVO É BOM TIPO


E DEPOIS DO CAFÉ? #013

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"BIRTH" »»» JONATHAN GLAZER
Um casal separado por um interregno de morte até o marido voltar passado dez anos na pele de um menino para “reclamar” sua esposa, eis o mote para este filme com a Nicole Kidman a convidar-nos à reflexão sobre a vida e a morte, sobre o luto, sobre o amor. Nesta película não existem certezas nem “partis-pris”. Expõe-se uma história e o resto é connosco, quer sejamos eternos cépticos, quer tenhamos a reencarnação ou transmigração das almas um dado adquirido na nossa concepção de vida. O que achei interessante neste filme é que ele levanta a dúvida sem nunca ter a pretensão de resolver o que quer que seja. Esta história permite-nos sermos juízes sem tirarmos conclusões, o objectivo não é resolver uma questão de forma maniqueísta mas, adoptarmos uma posição de abertura à verdade seja ela qual for e, na falta da mesma, aceitamos um “encolher de ombros”, uma interrogação na espera de uma certeza mais sólida. Seguramente urge uma nova revolução epistemológica na ciência e será nesta nova postura que poderemos permitir mais avanços. Um conceito um pouco paradoxal, concordo, mas vejamos, trata-se de duvidar para seguir em frente com mais convicções e quando chegamos mais perto da verdade, só foi possível porque não descartamos a tal hipótese nula.
Embora não estejamos perante um filme brilhante, não aceito que se diga por aí pelas criticas desses cinéfilos que gostam mais de destruir de que de cinema propriamente dito, que é mais um mau filme, mal escolhido pela Nicole K. Penso é que não terão feito a devida digestão do mesmo. Como referi acho que coloca uma questão bem pertinente sem dar a tal pista, simplesmente descreve uma história. Ainda dentro do tema da reencarnação convém lembrar um senhor, o psiquiatra americano Ian Stevensen que dedicou a sua vida a fazer o estudo de cerca de 3000 casos de supostas vidas passadas de crianças que recordam em estado de vigília as famílias que tiveram, por vezes apresentam marcas físicas de outra vidas, etc. Enfim, poderemos teorizar muito à volta do que leva essas crianças a proferir essas afirmações mas se partirmos do pressuposto de que é tudo falso então estamos a recusar uma possível via. Como já foi dito e a confirmar-se o trabalho desenvolvido por Stevenson, arrisco dizer que talvez venha a ser o Galileu deste século, derrubando fronteiras rumo a uma verdade maior num reencontro da ciência e filosofia (neste caso oriental).
alves PEDRO


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