
“Vera Drake” é o último filme do britânico Mike Leigh. O filme conta a história de uma mulher de meia idade que se dedica a “ajudar jovens raparigas” clandestinamente e sem remuneração que, após anos de prática ilegal, é levada perante a justiça e condenada a uma pena de prisão.
O filme é de uma dureza impressionante, primeiro porque o tema de fundo, o aborto, é já por si forte e delicado demais e depois porque a forma como Leigh constrói a narrativa evidencia ainda mais seu lado cruel e desumano. Poderíamos reter apenas as cenas da diferença de classes, em que o dinheiro do rico é argumento para que o aborto seja praticado de forma segura e sem prejuízos para a mulher e o pobre depende do altruísmo de Vera, ou de outras menos altruístas que se aproveitam de uma necessidade para com isso ganhar a vida. Poderíamos reter as imagens do sofrimento daquelas mulheres que inclui não só a decisão penosa de desistir de uma gravidez como todo o medo associado às consequências da realização do aborto. Poderíamos reter a imagem da imigrante completamente assustada e cujo sofrimento nos é tão difícil de esquecer dias após termos visto o filme. Mas Leigh refina a dureza desta história, mostra-nos o lado mais belo da vida na família de Drake, na sua honestidade e compaixão, mostra-nos o amor como ele já quase não existe, acentuando-nos a dor, a sensação de injustiça perante todas aquelas mulheres e perante Vera, aquela mulher em especial.
Ao sairmos do cinema pensamos que a bondade não chega para que sejamos felizes. Mais do que o sofrimento de que somos testemunhas ao longo do filme é esta a grande perversidade da história - a bondade não chega!
É duro, mas é necessário ver.
v. LEAL BARROS
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