PÉROLAS A PORCOS #006


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NARCISO »»» CARAVAGGIO


FILHOS DE NARCISO

Desde muito cedo que o homem se apercebeu do poder da imagem. A consciência da morte e consequente culto verificado em todas as sociedades revelou-se, como nos diz Lewis Mumford numa “expressão de fascinação de si mesmo”. A capacidade de interpretar as imagens do quotidiano e as poderosas imagens de fantasia dos sonhos criaram nele uma espécie de necessidade em selar momentos, eternizando-os de algum modo. Verificamos que, desde as cenas do quotidiano paleolítico de Lascaux ou Altamira até à sumptuosidade da arquitectura funerária egípcia, existe uma intenção forte de apropriação da imagem enquanto tal, ou enquanto forma, como meio de atingir o belo e o imortal. A busca da eternização da memória pela arte é muito mais do que a criação ou o registo da beleza, ela é a constatação da natureza narcísica da própria condição humana. Como filho de Narciso, ou enquanto Narciso ele mesmo, o homem necessita intrinsecamente do perpétuo, marcando de forma mais ou menos subtil o rasto do seu percurso. Aceitemos portanto enquanto espécie, o egoísmo como elemento fundamental e primordial da nossa natureza sem dramatismos ou falsos moralismos.


Tendo como base o pressuposto de que somos a partir do momento em que nascemos animais egoístas, interessa-nos questionar até que ponto cultivamos ou sublimamos esse aspecto de carácter em cada percurso individual. Se fizermos uma retrospectiva sumária da História verificamos que, o modo como cada indivíduo lida com o Egoísmo é relativamente, para não dizer completamente padronizado. Confesso que não aprecio muito a etiquetização seja ela do que for e muito menos do que se relaciona com comportamentos humanos, considero no entanto que, sobre este assunto específico, ela é de tamanha evidência e a meu ver quase cruel. Dentro do todo Egoísta há portanto, o Egoísta Génio, o Egoísta Corporativo, o Egoísta Activista e o Egoísta Comiserado.
O Egoísta Génio nunca é atingido pela consciência e obedece à lei do impulso. Alheio a tudo que é exterior a si, como sejam os valores éticos, morais ou sociais estabelecidos, o seu egoísmo pode manifestar-se benévola ou malevolamente sempre que o instinto o determina, não advindo no indivíduo qualquer noção de responsabilidade ou culpabilidade decorrente do acto egoístico. É olhado pelos restantes como uma espécie de Egoísta Autista, isolado, suscitando sempre admiração e inveja, sendo deificado quando o egoísmo contribui para um “bem” comum ou odiado quando o egoísmo actua em sentido contrário.
O Egoísta Corporativo é completamente alheado de carácter. Não sabe nunca quando deve ou não deve exercer o acto egoístico e dificilmente tem consciência do modo como o usa. Ao contrário do Egoísta Génio, tem bem presente as consequências sociais resultantes da violação dos valores éticos e morais decorrentes do seu comportamento e, como tal, o verdadeiro acto egoísta que exerce é a integração num grupo ou comunidade que lhe garantam uma total desresponsabilização.
O Egoísta Activista é astuto, exercendo sempre o acto egoístico em consciência e em conformidade com o que de frutuoso dele resultar. Sabe que está sujeito e exposto aos modelos ético-sociais e à responsabilização dos seus actos, portanto, antevê sempre o seu plano, prevendo as dificuldades e engendrando uma possível escapatória. O Egoísta Activista é vaidoso e esperto. É detentor em si da própria essência do Egoísmo que combina sabiamente com outro dos seus atributos, o Orgulho, e, raramente é infeliz.
Por fim temos o Egoísta Comiserado que é uma espécie de mescla entre o Egoísta Corporativo e o Egoísta Activista. Ele combina o medo da responsabilização e a cobardia no exercício do egoísmo, do primeiro e, a consciência do seu uso deliberado enquanto arma de interesse pessoal, do segundo. Distingue-se dos outros apenas por uma consciência ético-moral profundamente enraizada e cultivada, da qual não abdica. O seu acto egoístico é tão e somente a resistência aos outros tipos de Egoísmo, enquanto espera egoisticamente que os outros acolham a sua boa fé, o que nunca acontecerá visto todos serem egoístas.
v. LEAL BARROS


1 Respostas a “PÉROLAS A PORCOS #006”

  1. Blogger Beatriz Seabra 

    nem sei bem o que dizer, mas talvez esse egoísmo se desvanece quando se desvanecer também a necessidade de deixar uma marca. quando nada for a resposta à pergunta o que é que gostarias de realizar na tua existência?

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