LEITURAS ÚLTIMAS #002


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"A Câmara Clara" »»» Roland BARTHES

A “Câmara Clara” (1980) foi o último livro publicado em vida por Roland Barthes, um ano antes da sua morte. A obra é uma meditação profunda sobre a imagem fotográfica e a Fotografia em si enquanto manifestação artística, na qual o autor transcende o seu próprio sentido crítico associando-lhe uma análise extremamente pessoal, por vezes apaixonada e dramática.
Rejeitando qualquer critério de classificação e definição, na sua opinião redutores, Barthes parte à procura da verdadeira essência da fotografia estabelecendo-se ele mesmo como mediador. “Verifiquei, com uma certa irritação, que nenhum deles me falava precisamente das fotografias que me interessam, as que me provocam prazer e emoção.” É precisamente através dessas fotografias, as que lhe provocam prazer e emoção que assenta toda a sua teoria. Colocando-se como observador ou spectator como lhe chama, o autor desenvolve as noções de studium e punctum, a primeira relacionada com toda a aculturação a que a fotografia está sujeita e que lhe permite ser entendia, “uma espécie de educação (saber e delicadeza) que me permite encontrar o Operator (…) como se eu tivesse de ler na fotografia os mitos do fotógrafo, confraternizando com eles, mas sem acreditar neles” e a segunda como o factor que distingue a fotografia das fotografias, o detalhe, o ponto que a desequilibra e lhe confere um significado mais amplo, “esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala) ”. Ainda em relação ao punctum refere que essa intensidade, esse quê que transforma a fotografia num objecto amado não se traduz pelo pormenor ou pela forma, mas pelo Tempo, a “ênfase dolorosa” da essência, a constatação de que “isto foi”.
É a partir desta característica única e essencial da fotografia, deste “isto foi”, deste poder de verosimilhança que a fotografia detém, que Barthes parte para uma reflexão apaixonada e dramática sobre a vida e a morte. A fotografia poderá retratar um assunto vivo, mas sobre ele pairarão sempre o dedo assassino do fotógrafo que matou o momento e a pergunta invariavelmente presente se aquele ou aquela que vemos no papel são ainda vivos ou morreram pela enésima vez.

À luz das correntes contemporâneas, as definições estabelecidas por Barthes em relação à essência da fotografia, ao “isto foi”, poderão ser discutíveis. A fotografia digital e a manipulação das imagens quebraram por completo a tal verosimilhança do tempo fotografado. As imagens despidas de punctum são cada vez mais e a cada dia mais traiçoeiras, mais sugestivas e venenosas. “Cabe-me a mim escolher, submeter o seu espectáculo ao código civilizado das ilusões perfeitas ou enfrentar nela(s) o despertar da inacessível realidade”.

O livro está publicado pela Edições 70 com tradução de Manuela Torres.
v. LEAL BARROS


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