A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #006


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há poemas assim tão demasiadamente humanos. são capazes de levar-nos às lágrimas.

CANÇÃO

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas

Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.
Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.

Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não poderemos regressar tão cedo.
O cônsul deu um murro na mesa e disse:

se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.
Lá em baixo no adro um velho teixo

todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos passaportes não florescem.
Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira,

disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?
Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:

se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.
Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?

É Hitler sobre a Europa dizendo: "Eles têm de morrer!"
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no Seu pensamento.
Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete,

vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não eram judeus alemães.
Desci ao porto e parei no cais

vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés de distância.
Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,

não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana.
Sonhei que vira um edifício com mil andares

mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma delas era nossa.
Corri à estação para apanhar o expresso,

pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as carruagens estavam cheias.
Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair:

dez mil soldados marchavam de um lado para o outro,
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e para ti.

W.H. Auden

in "Rosa do Mundo"
trad. Jorge Emílio
Assírio & Alvim
Lisboa, 2001


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