A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #003


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"Reflexos" »»» v. LEAL BARROS
reflexos

existo na fronteira do preto com o branco,
no lugar preciso entre o sangue e o espelho.

os meus passos não são reais
não gravam o chão nem fixam o tempo

vivem como sombras, independentes, como se
a sua história se afastasse da minha

e caminham rumo a uma luz qualquer
no vértice que separa o real do etéreo.

nesse ponto, onde o espelho me devolve os passos,
nesse instante, não sou nada. sou completamente.

e volto a existir no verdadeiro espaço das coisas,
na massa volátil entre o olhar e o reflexo.

aí, na nova morada, recrio-me, reinvento-me, reconto-me,
porque é o sonho quem me dá esse direito.

então, posso ser quem eu quiser, quem tu quiseres.
aí, na nova morada, não há identidade, não há tempo.

depois, sou a água calma do rio e a nuvem do céu.
depois, sou o mar forte e o galho da árvore.

e sou vento e sou sol e sou fogo
- lembra-te, posso ser quem eu quiser.

e sou sangue e sou veneno e sou lama
- lembra-te, posso ser quem tu quiseres.

na nova morada o único limite é o sonho.
entre o sangue e o espelho há vida que pulsa.

inalo a alma, inspiro por mais uns segundos a eternidade,
essa massa volátil que se molda entre o real e o virtual

e de repente não há mais ausência, o éter esgota-se.
os olhos fogem-me novamente perseguindo os meus passos.

diagonalmente, um pé sai da nova morada e
lentamente, marca com impressão forte o meu corpo.

o outro pé, foge diagonalmente para o espelho
abraçando o outro corpo, o reflexo que ganhou vida.

os passos escapam sempre da nova morada,
não apreciam a eternidade das suas paredes incolores.

é-lhes insuportável uma existência metafísica,
necessitam do sangue e necessitam do espelho.

despedem-se da eterna fronteira e partem
restando-lhes a saudade da casa dos sonhos.

o pé que marcou com impressão forte o meu corpo
desenhou na minha pele o destino, encarcerou-me.

escreveu-me a tinta permanente, inapagável,
e eu serei escravo da sua vontade e do seu poder.

o outro pé, o que fugiu diagonalmente para o espelho,
embora pobre por ter rejeitado a eternidade da antiga morada,

mergulha na virtualidade do sangue reflectido e,
no mar do espelho vivo, pinta telas abstractas, interpretáveis.

agora, os dois pés, nos seus novos países, olham a antiga morada.
sabem que na casa do sonho existiam anjos, diabos e duendes,

sabem que existia o vento, o sol e o fogo,
sabem que existia o sangue, o veneno e a lama.

o pé que marcou com impressão forte o meu corpo,
chora. o pé que marcou o meu corpo, chora.

nas suas lágrimas corre o veneno da realidade.
o destino escolheu assim. chora a liberdade perdida.

o outro pé, o que fugiu diagonalmente para o espelho,
sabe que vive a mentira do reflexo, sabe que o brilho é irreal.

o outro pé, sabe que o espelho é sempre falso.
mas ri, solta a gargalhada da antiga morada

porque no espelho, no espelho há ilusão,
há um resto de éter, uma possibilidade de sonho.

então diz-me, sou o vento, o sol e o fogo.
diz-me sou o sangue, o veneno e a lama.

sou aquilo que quiser. sou aquilo que quiseres. no espelho,
sou o que acreditas. e se acreditas, então é verdade.
v. LEAL BARROS


3 Respostas a “A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #003”

  1. Blogger Gado Bravo 

    É como diz o poema meu amigo, podemos ser o que quisermos. Basta crer e querer. Assim sendo, o Gado Bravo deseja-vos a todos um 2005 renovado de esperanças, cheio de força e de boa vontade. Um grande abraço deste lado do oceano a todos vós! Beijinhos e entrem da melhor forma no ano novo :)

  2. Blogger alex Alexandra 

    Acredito em ti, acredito no teu valor.
    Salta o muro e dá o passo em frente.
    Mais cedo ou mais tarde toda a gente vai reconhecer a qualidade do teu trabalho, e vais correr mundo...
    E eu, vou estar na primeira fila à espera do meu exemplar autografado! :-)
    Bjones

  3. Blogger alves PEDRO 

    Ao ler podemos interpretar e entrar no universo central do existir. Mas quem como eu, teve oportunidade de ver as fotografias que compoem este trabalho, fica ainda mais tocado, mais absorto pelo seu significado. Quando é que vamos ter oportunidade de ver esta tua obra exposta? Téns claramente essa obrigação, todos nós agradecemos a sua existência.

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