A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #003

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"Reflexos" »»» v. LEAL BARROS
reflexos

existo na fronteira do preto com o branco,
no lugar preciso entre o sangue e o espelho.

os meus passos não são reais
não gravam o chão nem fixam o tempo

vivem como sombras, independentes, como se
a sua história se afastasse da minha

e caminham rumo a uma luz qualquer
no vértice que separa o real do etéreo.

nesse ponto, onde o espelho me devolve os passos,
nesse instante, não sou nada. sou completamente.

e volto a existir no verdadeiro espaço das coisas,
na massa volátil entre o olhar e o reflexo.

aí, na nova morada, recrio-me, reinvento-me, reconto-me,
porque é o sonho quem me dá esse direito.

então, posso ser quem eu quiser, quem tu quiseres.
aí, na nova morada, não há identidade, não há tempo.

depois, sou a água calma do rio e a nuvem do céu.
depois, sou o mar forte e o galho da árvore.

e sou vento e sou sol e sou fogo
- lembra-te, posso ser quem eu quiser.

e sou sangue e sou veneno e sou lama
- lembra-te, posso ser quem tu quiseres.

na nova morada o único limite é o sonho.
entre o sangue e o espelho há vida que pulsa.

inalo a alma, inspiro por mais uns segundos a eternidade,
essa massa volátil que se molda entre o real e o virtual

e de repente não há mais ausência, o éter esgota-se.
os olhos fogem-me novamente perseguindo os meus passos.

diagonalmente, um pé sai da nova morada e
lentamente, marca com impressão forte o meu corpo.

o outro pé, foge diagonalmente para o espelho
abraçando o outro corpo, o reflexo que ganhou vida.

os passos escapam sempre da nova morada,
não apreciam a eternidade das suas paredes incolores.

é-lhes insuportável uma existência metafísica,
necessitam do sangue e necessitam do espelho.

despedem-se da eterna fronteira e partem
restando-lhes a saudade da casa dos sonhos.

o pé que marcou com impressão forte o meu corpo
desenhou na minha pele o destino, encarcerou-me.

escreveu-me a tinta permanente, inapagável,
e eu serei escravo da sua vontade e do seu poder.

o outro pé, o que fugiu diagonalmente para o espelho,
embora pobre por ter rejeitado a eternidade da antiga morada,

mergulha na virtualidade do sangue reflectido e,
no mar do espelho vivo, pinta telas abstractas, interpretáveis.

agora, os dois pés, nos seus novos países, olham a antiga morada.
sabem que na casa do sonho existiam anjos, diabos e duendes,

sabem que existia o vento, o sol e o fogo,
sabem que existia o sangue, o veneno e a lama.

o pé que marcou com impressão forte o meu corpo,
chora. o pé que marcou o meu corpo, chora.

nas suas lágrimas corre o veneno da realidade.
o destino escolheu assim. chora a liberdade perdida.

o outro pé, o que fugiu diagonalmente para o espelho,
sabe que vive a mentira do reflexo, sabe que o brilho é irreal.

o outro pé, sabe que o espelho é sempre falso.
mas ri, solta a gargalhada da antiga morada

porque no espelho, no espelho há ilusão,
há um resto de éter, uma possibilidade de sonho.

então diz-me, sou o vento, o sol e o fogo.
diz-me sou o sangue, o veneno e a lama.

sou aquilo que quiser. sou aquilo que quiseres. no espelho,
sou o que acreditas. e se acreditas, então é verdade.
v. LEAL BARROS


COMUNICADO #003

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A vida que nos separa de vós não é mais do que um acaso brutal do capricho do mar. Existiremos todos um dia num universo mais tranquilo.
pelas vítimas do maremoto


DESASSOSSEGADAMENTE #004

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O próprio sonho me castiga. Adquiri nele tal lucidez que vejo como real cada coisa que sonho. Era perda, portanto, tudo quanto a valoriza como sonhada.
Sonho-me famoso? Sinto o despimento que há na glória, toda a perda da intimidade e do anonimato com que ela é dolorosa para connosco.
Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"
Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003


NA CAUDA DO PIANO #003

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Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, já dizia o poeta. O homem nasceu numa terra minhota, sonhou com Nova Iorque, sua obra nasceu e renasceu. Falamos de um António que poderia ter sido igual a outro António qualquer. Mas o António foi homem tão completamente que chegou até a ser mais do que uma qualquer gente. A sua simplicidade criativa assentou em raízes que nunca renegou, sem no entanto se prender às mesmas. Ele quis mais, desejando ir sempre além, tanto na música como na vida. Foi o seu “analfabetismo” musical que lhe permitiu ser livre para compor. Os seus “lalalas” foram ditados e traduzidos pelos instrumentos.
Estamos nos anos oitenta e não é nada fácil “ser-se”, na muito jovem democracia chamada Portugal. Pois este homem é Português, com certeza, e não abdica disso. Teria sido tão mais fácil se este E.T. fosse Holandês! Poderíamos perguntar-nos como teria sido o já paupérrimo panorama musical Português sem este doido varrido, de facto, algo mudou com a sua breve passagem.
Este fenómeno ainda nos guardou umas surpresas para voltar vinte anos depois da sua alma se ter diluído no infinito. São humanos herdeiros que o incorporam hoje para regozijo de quem ama a música e este sábio Portugal. As surpresas são doze: um álbum inteiro que o visionário guardou estrategicamente para regressar quando as mentes fossem mais expandidas, não para o compreender mas apenas para o desdenhar um pouco menos e até quem sabe amá-lo proporcionalmente ao que o seu amor universal merece. Este Nostradamus escolheu os tais humanos para reencarnar o seu espírito. Valha-nos esta escolha, pois normalmente a tecnologia permite fazer cantar os mortos, que o diga o Freddy Mercury. Três, é o número de humanos que deixam as suas cordas vocais vibrar pela evocação. David Fonseca, Manuela Azevedo e Camané, e parece-me que este último foi quem deixou mais viver em si o humano a quem faz o tributo, emprestam neste disco as suas vozes ao taumaturgo que, pelos vistos abençoou a obra, a ver pelo resultado.
Poderá finalmente o humano António ser reconhecido sem os estigmas e preconceitos que a pobre sociedade Portuguesa o havia acantonado? Penso que o homem ganhou tardiamente, mas com segurança, o lugar que merece, algures entre outros humanos que ele tanto devotamente venerou como Amália Rodrigues e Fernando Pessoa.
alves PEDRO
Imagem retirada do site »»» http://anos80.no.sapo.pt/antoniovariacoes.htm


ESQUISSOS #004

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ao meu irmão
fomos um passado duro no sangue e no ventre que nos uniu. por vezes choravas. e eu, queria romper a válvula que te congestionava o coração. depois sorrias. então, guardava a ternura do teu olhar e lutava e desafiava o destino e inventava-o de novo para que sorrisses sempre. nunca fui a força meu irmão. fui sempre alívio, fui sempre antídoto. hoje, ao ver-te assim livre, sei que a verdade és tu. eu, serei sempre a silhueta por de trás do véu e os meus olhos serão sempre o reflexo dos teus, incógnitos, do outro lado do espelho.

v. LEAL BARROS


CURTAS #006

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E o verbo se fez carne. Pela palavra vem o gesto, pelo gesto voltamos à sensação. Palavra é força, palavra em movimento, palavra a tua, palavra a minha, palavra: o poder. O poder solta-se nas palavras que o poeta engendrou. Onde queres tu chegar? Tu que verborreias lirismos de amores “intelectualoides”, perdido em sinergias políticas que não passam de estratégias de engate. Que sabes tu de mim? Quando só vives em escrita. Que palavras queres tu abusar para desprender-me da vida? Deixa-me optar pelo caminho mais sinuoso, é o meu, é aquele que eu quero seguir. A minha culpa não te alimenta mais. Vou-me soltar do poder da palavra pouco inocente, vou verbalizar a minha vida na estrada da minha vida. Deixar para trás o engodo da tua palavra, soltar o destino que escrevo. E o verbo se fez carne.
O engano provém da nossa capacidade de auto-ilusão
alves PEDRO


DEZ DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"Nativity in Black and Nativity in White" »»» Margaret Adams PARKER
Da Voz das Coisas
Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
Fiama Hasse Pais Brandão
in "As Fábulas"
Quasi Edições
V. N. Famalicão, 2002


NOVE DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"Adoration of the Shepherds" »»» CASTIGLIONE
Falavam-me de Amor
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
in "O Dilúvio e a Pomba"
Dom Quixote
Lisboa, 1979


OITO DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"O nascimento de Cristo" - Carlo SARACENI
Cartão de Natal a M.L.S.
Maria Luisa quantas vezes
recolheremos esta nossa vida
na piedade de um verso, como os Santos
na palma da sua mão as cidades muralhadas?
A primavera quantas vezes
voltará a moer os meus grãos de tristeza
dentro das chuvas, até teu rasto
inconsolável - em Saint Cloud, na Giudecca?
Não bastará um Natal inteiro
para trocarmos as fábulas mais suaves:
as túnicas de urtiga, os sete mares,
a dança sobre as espadas.
"Admiravelmente o tempo se desprega..."
reconduzirá no tempo este mínimo
escorrer, uma mulher, um átomo de fogo:
nós que vivemos sem fim.
Cristina Campo
in "O passo do adeus"
Assírio & Alvim
Lisboa, 2002


SETE DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"A Anunciação" »»» Fra ANGELICO
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
para lembrar e ser lembrados
para chorar e fazer chorar
para enterrar os nossos mortos -
por isso temos braços longos para os adeuses
mãos para colher o que foi dado
dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida
uma tarde sempre a esquecer
uma estrela a se apagar na treva
um caminho entre dois túmulos -
por isso precisamos velar
falar baixo, pisar leve, ver
a noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
uma canção sobre um berço
um verso, talvez, de amor
uma prece para quem se vai -
mas que esta hora não esqueça
e por ela os nossos corações
se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
para a esperança no milagre
para a participação da poesia
para ver a face da morte -
de repente nunca mais, esperaremos...
hoje a noite é jovem; da morte, apenas
nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
in "O operário em construção"
Dom Quixote
Lisboa, 1986


SEIS DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"Adoration of the shepherds" »»» GIORGIONE
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua emoção é tanta, tanta, tanta.
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
in "Poemas Escolhidos"
Edições João Sá da Costa, Lda.
Lisboa 1996


COMUNICADO #002

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Walk to Help »»» Thank you Sabine, Femke and Marjo
No seguimento do texto da crónica “Pérolas a Porcos #005” aproveito para contar mais um desses acasos magníficos de que fui testemunha. Faz pouco mais de uma semana encontrei três senhoras num café do Porto que me pediam para informá-las de um local na cidade onde pudessem usar um telefone por satélite. Passei-lhes a informação e perguntei-lhes de onde eram. Tal foi o meu espanto quando me disseram que vinham da Holanda a pé! Marjo Dosthoek, Femke Dufloo e Sabine Roobroeck, estes os seus nomes, pertencem à CHILD-AID holandesa, uma organização não governamental de apoio a crianças desfavorecidas que actua essencialmente em países da América Latina e da África. Marjo, disse-me no encontro, que a viagem a pé que faziam da Holanda até Portugal tinha como objectivo a angariação de fundos para futuros trabalhos com crianças colombianas. Espero, honestamente, que atinjam os seus objectivos.

www.child-aid.nl

Marjo, Femke and Sabine, I hope sincerely that your fantastic trip to Portugal has reached the objectives of your initial proposals. I told you that I would like to refer your organization in our web page as a little self contribution to your cause. I would like also to congratulate your magnificent work with the ones who need most, such as your beloved children in South-America.

Wishing you a Merry Christmas, sincerely,

v. LEAL BARROS


PÉROLAS A PORCOS #005

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Há acontecimentos na nossa vida que nos fazem questionar o sentido e o modo como percebemos o mundo. São o tipo de situações que racionalmente não encontramos explicação para acontecerem e quando surgem trazem consigo uma mensagem qualquer que nos transforma ou nos enriquece de alguma maneira. Chamar-lhes-ei os “ACASOS” da vida.
Na passada noite de Sábado aconteceu-me um desses “acasos”. Estava de fim-de-semana em Lisboa com algumas das pessoas que colaboram neste blog quando depois de jantar resolvemos ir beber um copo ao Bairro Alto. Até aí tudo normal. Eis então que uma das pessoas do grupo aborda acidentalmente uma senhora que passava a chorar no meio da confusão. Olhando a senhora dizia para comigo, “lá vem aí mais um daqueles personagens pitorescos que quando começam a falar nunca mais se calam”. Rapidamente a conversa passou da tradicional competição Porto – Lisboa para algo bem mais interessante e rico como é a história de vida única e irrepetível de um ser humano. Durante duas horas a D. Maria do Céu partilhou connosco a sua experiência. Falou-nos da sua vida, dos seus amores e desamores, do seu sofrimento e da sua alegria terminando sempre cada episódio com a frase “fiz tudo isto para criar a minha filha”. Ao ouvi-la tinha a sensação de aquela história ser um dos romances mais bonitos que tinha lido até então, com a particularidade de não ser ficção e de ter o personagem principal, de olhos verdes brilhantes, vivo e ali à minha frente. Saí do Bairro maravilhado, pleno da humanidade transpirada naquele relato.
Pergunto-me porque acontecem estes “acasos”, porque razão encontramos pessoas que nos passam tão boas energias de forma gratuita e genuína? A sensação que tenho é de que a vida é composta por diversas camadas, todas elas verdadeiras mas nem todas consciencializadas e, estes momentos, não são mais do que um encontro entre duas dessas realidades. A D. Maria do Céu existia já na minha vida, numa dessas camadas a que a minha consciência não tinha acesso. O encontro foi apenas o cruzamento das duas realidades já definidas, a perceptível e a não perceptível à minha consciência.
v. LEAL BARROS


CINCO DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"The Birth of Christ" »»» Elimo P. NJAU
Os Pratos da Balança
Por entre as rochas um rapaz, nas mãos levando uma balança, avança em direcção ao mar. Vai procurar pesá-lo. Num dos pratos, o mar há-de revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à superfície a força das entranhas e atraír o céu, há-de-o fazer precipitar-se até com ele se confundir, e as próprias rochas através das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente. Imperturbável, o rapaz colocará no outro prato o seu sorriso.
Luis Miguel Nava
in "Poesia Completa 1979 - 1994"
Publicações D. Quixote
Lisboa, 2002


QUATRO DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"A Sagrada Família" »»» RAFAEL
e no detalhe
habita um deus: partilho
essa convicção simples, dura como um seixo.
de todas as palavras, só uma irá bater
à porta do desconhecido,
entrar no coração, dar as boas-vindas,
e todas poderão ruir, e ela ficará latejando
no sangue de primeiras núpcias.
eu calculo a passagem do estorninho e da poupa, vejo
a exacta emoção da inexacta curva,
o rastro, facilmente luminoso.
a terra cresce para todos nós, tão rápida nos ramos,
só o vento a detém. um dia
seremos úteis e preciosos como a erva e a cabra,
e ricos de virtudes saberemos
o que fazer para morrer, não morrer. entretanto
ela lateja na núpcia do sangue, inteiramente ignorante
de grande sentido de tudo isto,
egoísta como a primeira mão
que nos tocou,
um destino leviano, sensível, pacato,
depois o sulco deixado reparte as colinas
e o pequeno piano repete
a criação do mundo.
António Franco Alexandre
in "Poemas"
Assírio & Alvim
Setembro de 1996


A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #002

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É Natal!...
Os sinos dobram,
As luzes piscam,
As crianças riem...
É Natal!
As cores brilham,
Os céus partilham,
Os pobres sorriem...
É Natal!

18 de Dezembro de 1997


Maceda Pereira



AFORISMOS #003

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“As ideias, porém não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independentemente delas, senão acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão – o amor e a procura desinteressada da verdade.”
Antero de Quental


CURTAS #005

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Insurjo-me contra a ideia redutora a que tantas vezes acantonaram a consciência, pretendendo localizá-la como se ela fosse um espaço! Pois… e já agora digam-me quanto pesa e quanto mede? O cérebro é uma estrutura. A consciência não é matéria, pelo menos sólida. A consciência é o contacto que vai de ti a mim, quando estamos dois. A consciência é sabermos que estamos vivos, estamos conscientes, logo, vivemos. Estou consciente sentindo a presença. Estás consciente porque lês estas palavras e estou a ver-te!
alves PEDRO


AFORISMOS #002

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"O Mundo inteiro aspira à liberdade e, no entanto, toda a gente gosta das suas amarras - é este o primeiro paradoxo e uno inextricável da natureza humana"
Shri Aurobindo


ESQUISSOS #003

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dói-me quando calas a noite e os teus braços são cansaço e a tua mão é solidão.
dói-me quando do fundo dos teus olhos soltas o néctar salgado que me queima a pele e me rasga a alma. dói-me meu amor. seria o olhar que vigia a planície estéril dos teus medos, seria o vento que te enxuga o rosto, seria a sombra dos teus passos. seria meu amor.
v. LEAL BARROS


TRÊS DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"O Profeta" »»» CHIRICO
NATAL
Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Os deuses, não os reis, são os tiranos.
É a lei do Fado, a única que oprime.
Pobre criança de maduros anos,
que pensas que há revolta que redime!
Enquanto pese, e sempre pesará,
Sobre o homem a serva condição
De súdito no Fado.
Fernando Pessoa
in "Obras de Fernando Pessoa" - vol. I
Lello e Irmão - Editores
Porto, 1986


E DEPOIS DO CAFÉ? #004

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Na noite gelada da passada terça-feira, um raio de luz mascarado numa das vozes mais quentes e fortes da World Music actual aqueceu a pequena sala da Casa das Artes em V. N. de Famalicão. Lhasa subiu ao palco com a sua trupe fantástica e encantou mais uma vez o público português.
Lembro-me, já lá vão dois anos e qualquer coisa, de uma amiga chegada de França me fazer ouvir La Lhorona. Apesar do rebuliço de vozes na sala aquela música não deixava ninguém indiferente, adjectivei-a na altura de passional. Hoje, depois de ter assistido pela primeira vez ao vivo, a um concerto de Lhasa, sinto que o adjectivo é insuficiente para descrever a sua música. Carregada de sons que nos obrigam a viajar, desperta-nos de tal forma a imaginação que, a meio do concerto não é de estranhar vermo-nos tais caixeiros-viajantes a cruzar o deserto do Arizona com o Grand Canyon posto no horizonte. Lhasa não é só força e paixão como sentia ao escutar os seus discos. É isso, mas é também a quietude e serenidade das histórias que conta nos intervalos das músicas, é um jogo completo de luz e sombra, em que a voz que canta parece arrancada das vísceras como dizia a Alex e a voz que fala embala-nos docemente como se voltássemos a ouvir o passado dos nossos avós.
Se o seu objectivo é enfeitiçar quem a ouve, pessoalmente confesso que o conseguiu. Como dizia o alves P. no final do concerto, “esta mulher é uma diva”!
v. LEAL BARROS


NA CAUDA DO PIANO #002

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Lhasa de Sela nasceu em Big Indian, uma pequena aldeia entre os montes Catskill do estado de Nova York, embora não permanecesse por lá muito tempo. Os seus pais ferozmente idealistas, rejeitaram a rotina e a estabilidade, preferindo seguir a vida para onde ela os levasse. Durante sete anos, a família percorreu os Estados Unidos e o México a bordo de um “autocarro-casa”. Começa então para Lhasa uma relação intensa com a estrada. Viaja acompanhada das suas três irmãs, da sua mãe fotografa e do seu pai escritor, professor de espanhol, que consoante as necessidades trabalhava na construção civil ou na apanha de frutos. O imaginário de Lhasa desenvolveu-se no contacto com livros, contos de fadas, contos radiofónicos e paisagens que desfilavam ao longo das numerosas estradas emprestadas. Teve sempre consciência da sorte de viver a sua infância assim, como uma grande aventura, apesar da promiscuidade por vezes asfixiante e da insegurança quase quotidiana. Esse tempo da infância foi vivido ao som dos clássicos americanos e mexicanos do seu pai e da música latina, árabe e japonesa que ouvia a sua mãe.
A meio da década de 80, o autocarro-casa aporta em S. Francisco. Lhasa, com treze anos, rouba o palco de um café Grego para cantar baladas de Billie Holliday e áreas de música mexicana à capela. Ali descobre gradualmente o poder da sua voz e a capacidade de exprimir pensamentos e emoções que começava então a descobrir em si própria.
Seis anos mais tarde, a estrada leva-a a Montreal e os seus passos cruzam-se com os do guitarrista e compositor Yves Desrosiers. É um encontro determinante. Durante cerca de cinco anos desfilam pelos bares da metrópole e pouco a pouco, a sua colaboração orienta-se para a criação dando forma a La Lhorona, álbum publicado pela Audiogram em Fevereiro de 1997, que veio a conhecer um sucesso estrondoso. Da mitologia azteca, a figura de Llorona designa a rapariga que enfeitiça os homens chorando e cantando-lhes melodias tristes. Esse álbum, interpretado em espanhol, foi adjectivado de “rico e único”. Centenas de milhares de pessoas caíram sob o charme da voz de feitiço da cantora, dos seus textos, de uma poesia madura e da sua música rica em perfumes diversos. Primeiro no Quebec, onde enche salas e ganha o prémio “Félix Artiste Québécois – musica do mundo” em 1997, depois no Canadá onde ela vence o “Juno Best Global Artist” em 1998, nos Estados-Unidos e na Europa, especialmente em França. O Álbum será disco de platina no Canadá (110 000 álbuns vendidos) e triplo disco de ouro em França (300 000 álbuns vendidos).
Depois de quase três anos de concertos sem parar, na véspera do ano 2000, Lhasa sente a necessidade de voltar às suas fontes interiores. Para a cantora, a música é um gesto sagrado, longe do entreter. Decide continuar o caminho, afastando-se do quadro no qual a experiência de La Llorona a mergulhou.
Lhasa vai ter com as suas três irmãs na Bourgogne, em França, que trabalham num “circo contemporâneo”, próximo do teatro intimista. Se por um lado Lhasa regressa a uma parte de si, por outro, ela lida com um meio exigente, feito de encontros insólitos, mas também momentos estafantes. A trupe não só actua como assegura também a infra-estrutura do circo. Montagem e desmontagem da tenda, dos palcos, dos cenários, trajectos, acampamentos…. Ao cabo de numerosas representações, Lhasa estabelece-se em Marselha, cidade indomada, onde se misturam tantas contradições, onde se fundem o hoje e o ontem e onde nascerão as canções do seu próximo álbum.
De volta a Montreal, Lhasa reencontra em Novembro de 2002 François Lalonde, compositor, percussionista e baterista notável, e Jean Massicotte, igualmente compositor e pianista de talento. Os dois vão co-realizar e assegurar os arranjos de “The Living Road”, um disco muito esperado nos dois lados do Atlântico.
Se La Lhorona se articula em torno de um personagem, The Living Road tem por figura central a própria estrada, como uma entidade viva, que se orienta no espaço e no tempo, sem nunca possuir um sentido único. As próprias canções viajam livremente por esse caminho, contornando o passado e o presente, adquirindo nos três idiomas da cantora (espanhol, francês e inglês) a sua identidade própria.
Em estúdio, o trabalho dos três cúmplices consistiu em deixarem-se guiar por cada uma das canções. Envolvidos no vasto e triste estúdio da rua de Saint-Laurent, passaram cerca de um ano, fora do tempo, procurando que a magia das canções de soltasse.
E a magia produziu efeito. The Living Road é um álbum de um universo ecléctico, perturbante e de rara intensidade, onde a cantora nos desencaminha com a sua voz de uma beleza luminosa e sem artifícios. Os textos cruzam e recruzam fronteiras com a sua poesia íntima, cheia de humor e de melancolia, transportados por uma música intemporal de melodias e ritmos texturados. The Living Road é um álbum de uma maturidade desconcertante.
Neste seu novo projecto, apercebemo-nos de uma convicção, na qual, cada pessoa é uma estrada viva, sem qualquer precedente, mesmo o passado que se tornou único para cada um de nós. “É isto que anima as canções do álbum”, diz Lhasa, “essa força misteriosa que te empurra a não te contentares com nada, a nunca te enfiares numa caixa, quieto, dizendo: aquilo é aquilo! eu sou isto! A estrada é viva, não a podemos dominar e sabemos disso.”

Tradução para português por: v. LEAL BARROS e alves PEDRO.
Imagem e texto original em francês retirados do site »»»
www.audiogram.com


ESQUISSOS #002

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naquele dia rasguei a cidade para te ver. os teus olhos molhados pela chuva dos nossos sonhos procuravam os passos do meu dia. no silêncio do quarto dizias-me - olha-te - e eu, sem me encontrar, baloiçava-me nas árvores do medo. depois beijavas-me e aproximavas a minha cabeça do teu peito. desprendias o suspiro da paixão e dizias-me - olha-te - e eu, exausto da minha luta, não via o fim da estrada sinuosa do meu passado. então, com a paciência dos anjos e a verdade dos heróis, dizias-me - amo-te.
v. LEAL BARROS


AFORISMOS #001

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"A Persistência da Memória" »»» Salvador DALI
"Passam as horas, passam os dias, passam os séculos, e se houvesse hieróglifo com que se pudesse pintar, havia de ser todo com asas, não só correndo e fugindo mas voando e desaparecendo."
Padre António Vieira
in "Sermões"


O POVO É BOM TIPO #003

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ESTÁTUA(S) »»» v. LEAL BARROS


CURTAS #004

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A verdade, qual verdade? Alguma vez existiu? Se tivesse existido, nunca seria verdade por já não ser presente e portanto já finitamente extinta. A verdade poderá não existir porque a vida tem pressa e não pára. Verdade, apenas na morte, porque essa escreveu, essa fechou as contas. A vida faz delete ou copy paste nas vidas. A vida, perpétua escritora de mentiras verdadeiras e pensamentos de falsas verdades. Quem conhece a morte conhece a verdade. Mas a verdade vive e vive eternamente e a grande dificuldade vem só do presente. O presente? Será essa a verdade? O impalpável indelével presente. Que grande constipação da verdade! Talvez aspirina.
alves PEDRO


A INFINITA PRATELEIRA DAS METÁFORAS #001

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EFEMERIDADE


É. Não é: era!
Faço. Não faço: fiz!
São 10 horas 35 minutos e 2 segundos. Não são: eram!


Eis a efemeridade dos acontecimentos:
A contagem do tempo do tempo não pára
E o presente é o que se vive no momento,
Pois, quando se tenta dizer, já passou!
Penso que se deveria optar,
Sempre, pelo tempo pretérito perfeito
Do modo indicativo,
Em detrimento do tempo presente.
Mas terei que primeiro perguntar
A algum linguista entendido
Se concorda com este motivo,
Para assim, se comunicar.
E na melhor das hipóteses
Pode ser que este descubra
Algum tempo verbal esquecido,
Que seja mais fiel
Ao movimento do tempo a rolar!

Maceda Pereira


DUAS DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"Life Tree" »»» Gustav KLIMT
“E o Cavaleiro entre silêncio e treva continuou a caminhar para a frente.
Caminhava ao acaso, levado por pura esperança, pois nada via e nada ouvia. As ramagens roçavam-lhe a cara e caminhava sem norte e sem oriente.
O cavalo enterrava-se na neve e avançava muito devagar. Até que de repente parou. O homem trocou-o com as esporas mas ele continuou imóvel e hirto.
- Vou morrer esta noite – pensou o Cavaleiro -.
Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações. E lembrou-se de Baltazar, Gaspar e Melchior, que tinham lido no céu o seu caminho. O céu aqui era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhuma voz nem se via nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.
Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
- Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.
- Deus seja bendito – murmurou o Cavaleiro -. Deve ser uma fogueira. Deve ser algum lenhador perdido como eu que acendeu uma fogueira. A minha reza foi ouvida. Junto dum lume e ao lado de outro homem poderei esperar pelo nascer do dia.
O cavalo relinchou. Também ele tinha visto a luz. E reunindo as suas forças, o homem e o animal recomeçaram a avançar.
A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma de um cone.
Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
- Que maravilhosa fogueira – pensou o Cavaleiro -. Nunca vi fogueira tão bela.
Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes. Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.

Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

in “O Cavaleiro da Dinamarca”
Figueirinhas Editores
28ª Edição – Fevereiro de 1993


ESQUISSOS #001

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que horas são?
amanhã morro todo nos teus braços.

v. LEAL BARROS


CURTAS #003

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DESASSOSSEGO

Ando perdida num turbilhão de pensamentos que viajam a quilómetros luz e que acompanham como sombras todos os segundos do meu dia.
Estão sempre lá, incómodos, no autocarro, no café, no escritório, enfim em todo o lado!
Ganham vida, cruzam-se, trocam ideias entre si e deixam-me cada vez mais desassossegada. Rebeldes, incontroláveis, teimosos, não descansam nunca!
E lá ando eu, rendida a esta tirania do pensamento quando as mais das vezes, o que eu queria era simplesmente não pensar em nada. Seria tão mais fácil não pensar.
Não pensar, não questionar, não pôr em causa tudo o que ouço, tudo o que vejo, tudo o que faço e quero fazer.
Porque tenho de questionar tudo? Porquê esta mania dos porquês?
Ironicamente é mais forte do que eu, nem eu própria me obedeço! Por muito que tente pôr de lado estes malditos porquês não consigo. De repente regressam eles, independentes, os pensamentos, os porquês.
Quando penso que finalmente me consegui libertar destes tiranos, dou por eles disfarçados no meu subconsciente tal qual aquela música que, sem saber porquê, passo o dia a cantarolar.
alex ALEXANDRA


PÉROLAS A PORCOS #004

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“SEM PEIAS NEM AMEIAS”

Pois é, é certo que quando se comete o crime de não pactuar com as regras do mercado se corre o risco de pertencer àquela fatia marginal, os “dissidentes”, que bem ou mal teimam em publicar o que lhes vai na alma sem almejar o protagonismo, coisa rara hoje em dia, já que os “reality shows” imperam e lideram as audiências. Cada vez mais se assiste a esse fenómeno de busca pela popularidade, pelo reconhecimento público, pela fama… o que importa é ser-se conhecido e para o conseguir faz-se tudo, ainda que seja cair no ridículo de não se fazer nada e ser-se conhecido por isso.
Felizmente, ainda há aqueles que contrariamente à corrente e sem se preocuparem com protagonismos, procuram todos os dias prestar um contributo, humilde que seja, à sociedade. Muitas vezes trabalham offline, nos bastidores e vão vivendo cada dia assim, desconhecidos para o mundo mas vitais para aqueles que com eles se cruzam. Sim porque, por vezes basta o exemplo, basta o acreditar, basta não ceder para contrariar esta letargia que impera. Resistindo à tentação de protagonismo porque não o buscam, basta-lhes a satisfação pessoal de saber que não passam pela vida de muitos mas ficam na vida de alguns. É destas pessoas que o mundo tem falta, pessoas verdadeiras, honestas, de valor e com valores. Chega de falsos samaritanos, chega daqueles que julgam preocupar-se com o mundo e com os outros porque é bem, porque é chique, porque está na moda!
Acreditemos que há possibilidade de com a experiência de cada um e com mais respeito pelos outros e pela VIDA, se crie uma nova consciência… vidas que tocam vidas, que tocam outras vidas e assim vão abrindo a cortina de fumo instalada na sociedade fazendo brilhar a estrela do AMOR.
alex ALEXANDRA


CURTAS #002

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Um coral de crianças, desleixadas pela falta de comparência de amor, abandonadas a si mesmas que encontram quem as veja, quem pare para simplesmente parar. Olhar. Hoje como no tempo daquele conto, ninguém tem tempo para parar e contrariar o julgamento de que aquelas criaturas foram vítimas. São umas lástimas, irreversivelmente perdidas entregues ao seu fado. Porém, ainda há quem possa perder o seu tempo com “inutilidades”, como é o caso de poucos “Clément Mathieu”. Sob a sua batuta, os perdidos para a sociedade conseguem suplantar os fados de chumbo que os acabrunham, para erguerem e soltarem vozes quentes afinadas pelo tom de quem atinge o outro ao ponto de o conseguir fazer parar. Olhar. Subimos uns degrauzinhos na escada quântica do Amor, a arte sublime da transmutação. O filme “Os Coristas” desvendou um segredo, assassinou um fado, ergueu dignidades, transformou vidas. Possamos também acreditar que é possível, que ainda não perdemos esse poder, possamos também parar. Olhar.
alves PEDRO


E DEPOIS DO CAFÉ? #003

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“Les Choristes”, um filme ainda em exibição, de Christophe Barratier, conta a história de Clément Mathieu, um professor de música no desemprego que ingressa num internato de reeducação de menores como supervisor. Através da música, Mathieu conquista a atenção e o respeito dos pequenos rebeldes e tenta subverter a política rigorosa e repressiva aplicada por Rachin, o director do internato.
Numa primeira análise poderemos considerar o filme uma versão mais ou menos interessante de “O Clube dos Poetas Mortos”, mas veremos que nos surpreende. Mathieu, o professor desempregado, é um personagem extremamente digno. Representa todas as pessoas que apesar de eficientes e produtivas nos seus trabalhos nunca vêem o seu valor reconhecido porque a sua humildade e escrupulosidade os levam a procurar a dignidade e satisfação pessoal e não o estrelato. Rachin, o director do internato, representa “o puxador de cadeira” da alta roda, o hipócrita pouco inteligente que vai dominando os que estão sob seu poder e ridiculamente sacudindo a caspa dos ombros dos seus superiores.
Como era de se esperar a crítica não gostou do filme, talvez por ser uma história simples que procura valorizar aspectos essenciais da vida como a humildade, a dignidade pessoal e o respeito pelos outros. Se o enredo fosse incompreensível ou histérico, a pretender o intelectualismo, estou convicto que teria tido mais sucesso juntos dos “Rachins” que publicam as rubricas de cinema nos jornais diários.
v. LEAL BARROS

Imagem retirada do site oficial de "Les Choristes" »»» www.leschoristes-lefilm.com





COMUNICADO #001

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A População agradece ao Presidente da Republica, Dr. Jorge Sampaio, a atitude tardia porém sensata, de dissolver o Parlamento.
A População diz-se cansada do "Reality Show" e manifesta desagrado por ter de aguentar com o Protagonista do programa e Bobos adjacentes até Fevereiro de 2005.
A População, embora impaciente para exercer o seu voto, aceita esperar pela data a definir pelo Presidente e espera que, deste modo, seja ela a escolher o próximo Protagonista, visto não ter sido consultada na escolha do Protagonista ainda em performance.


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