
Numa destas tardes, de visita ao Centro Português de Fotografia, à procura de me imiscuir no trabalho do Vari Caramés, deparei-me com uma das exposições mais arrepiantes, no bom sentido do termo, que tive oportunidade de ver em toda a minha vida. Por irónico que pareça não falo da exposição do Vari Caramés que procurava. Os que visitaram o CPF esta temporada devem saber a que exposição me refiro. “La Piel en La Mirada” é poesia, é um documento extraordinário do que é ser humano, é a beleza do corpo imperfeito e o traço firme do corpo perfeito, é, sobretudo, um encontro connosco próprios, com aquilo que nos atrai ou repulsa quando olhámos o outro.
Juan José Molina, autor deste trabalho fantástico, cartografa-nos a pele e o olhar com um rigor e um detalhe impressionantes. Sentimos em cada retrato, em cada corpo, um pouco de nós, um pouco da nossa pele e do nosso olhar, como se estivéssemos despidos durante todo o percurso da exposição. Como se as imagens não fossem suficientemente fortes, Juan José Molina convida cada um dos fotografados a legendar o seu retrato. É então que os nossos pelos se levantam quando olhamos um nu de uma senhora mastectomizada que nos diz: “Esta es la imagen del cuerpo que a modo de vestido manifesta mi existência. Lo uso para realizar en la vida la aventura que tengo encomendada. A través de el percibo el mundo y disfruto del esplendor de su belleza. Remendado como está, lo respecto y cuido con esmero, porque al igual que tú, forma parte del todo y es un ponto de luz del único Universo – Sencillamente soy, yo soy eso”.
Palavras para quê?
Obrigado Núria Doménech por existir, obrigado Juan José Molina por este belíssimo trabalho.
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