UMA DE DEZ PRENDAS DE NATAL

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"Starry Night" »»» van GOGH
A NOITE INTERIOR
Assim surgiu das trevas a figura da criança,
suja de sangue, para que eu a contemplasse, para que os meus lábios
lambessem o seu corpo.
Não é só a História a expectativa de um grito. Também a própria função física
de um corpo a contém e transmite, para que os outros, do outro lado,
recebam o líquido inicial.
É então que o percurso da raiz ao tronco se transmite
à Mãe; a qual,
retendo as águas, ali paira vagamente para que algo
da antiga passagem
permaneça. Nada de concreto,
nem o fulgor lácteo do rosto;
só a vertiginosa sucessão sonora,
os mornos vapores atmosféricos, a relação entre a voz
e o estado do tempo.
E ali cresciam aqueles tecidos,
num sentido de certo modo incognoscível, superiormente determinado.
Nuno Júdice
in "Poesia Reunida 1967-2000"
Publicações D. Quixote
Lisboa, 2000


CURTAS #001

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Queria ser dono do tempo e manietá-lo a meu bel-prazer. Queria só parar para dormir, libertar-me desse tirano, torturá-lo com a crueldade que ele me inflige dia a dia, um dia matá-lo! Alguém daria por ela? Até não! Ninguém tem tempo para espreitar um crime, ainda que desta envergadura. Podia depois fazer de conta, continuar a caminhar, podia enfim dormir.Seria o criminoso mais altruísta da humanidade e, se bem que pudesse merecer todas as honras a que tenho direito, ninguém teria mais tempo para mim.
alves PEDRO


PÉROLAS A PORCOS #003

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É PROÍBIDO PENSAR

Imaginemo-nos humanos pré-históricos, imaginemos também que nunca teríamos visto a nossa imagem reflectida num espelho de água, imaginemos ainda que pela primeira vez assistíamos ao desenhar da nossa face numa superfície qualquer. O que reteríamos do observado? Que questionaríamos? Que consciência nasceria, se é que alguma nasceria, desse acto? Possivelmente se fossemos humanos pré-históricos distraídos tão pouco notaríamos que a água nos tinha desenhado, no entanto, se fossemos humanos pré-históricos atentos possivelmente indagaríamos sobre que espírito aquático seria aquele desenhado à nossa frente. Pois bem, foi o espírito curioso dos nossos antepassados que nos trouxe ao presente. Viajamos ao longo da História na nau da curiosidade para aportarmos nas docas do pensamento. A capacidade de questionarmos, a possibilidade da interpretação e a oportunidade de comunicarmos com os outros da mesma espécie transformou-nos num animal diferente de todos os outros que povoam este planeta.
Pensadores, descobridores e criadores - homens pré-históricos curiosos, prepararam-nos caminho e ofereceram-nos a tábua do conhecimento de que dispomos hoje. O nascimento da era contemporânea, com o desenvolvimento científico-tecnológico da Revolução Industrial, trouxe consigo a democratização dos meios e formas de acesso ao conhecimento, possibilitando que uma população mais vasta adquirisse o direito de interpretar e de comunicar, impossíveis anteriormente por uma questão essencial de sobrevivência – “para que me serve o livro se não tenho pão?”. Se por um lado o desenvolvimento verificado nos dois séculos passados criou o meio para que o Homem contemporâneo ascendesse a um nível de conhecimento superior, por outro, o mesmo desenvolvimento afastou-o do ritmo compassado que mantinha com a Natureza. Enquanto seres biológicos fomos formatados para acompanharmos o relógio da vida. Possuímos uma engrenagem própria que obedece a leis e a regras que não podemos dominar e como tal sofreremos as consequências do desajuste se não estivermos atentos. O problema essencial do homem contemporâneo é, portanto, o divórcio com a sua própria natureza biológica; abriu mão do plantar a semente, do escutar o silêncio do crescimento da seara e do cair da morte ao final do dia resgatando a vida com o nascer do sol.
A patologia de que nós, sociedade contemporânea, padecemos, é exactamente esse desajuste com a nossa própria condição e manifesta-se essencialmente sob os sintomas da apatia, da passividade e da preguiça intelectual. Numa sociedade em que o progresso se encarrega de nos distrair com fait divers de todos os géneros e feitios e na qual o tempo é escasso para tudo e mais alguma coisa, o que nos resta é tão e somente a rendição incondicional. Ou será que não? Pois, é essencialmente aí que reside a questão. O que verificamos no decorrer da vida é que, apesar do estado grave da infecção, existem sempre por aí uns anticorpos que teimam em impedir o seu desenvolvimento – os tais humanos pré-históricos atentos. Estes seres, adeptos da questão e da interpretação, apesar do mundo apressado e desenfreado em que vivem e no qual tudo é comprado feito, cismam e porque cismam em parar, observando e tentando compreender o que se desenrola à sua volta. Ora, agora pergunto: Terão estes humanos pré-históricos atentos, alguma legitimidade para reflectir? Terão eles o direito a interpretar e a manifestar as suas opiniões? A ver pelo exemplo do professor Marcelo, parece-me que não! A resposta a que se chega é que na sociedade em que vivemos é proibido pensar e se por acaso há alguém que o arrisca a fazer a sentença é a exclusão ou então a tira de fita-cola na boca do pobre coitado.
Completando a antítese, é necessário pensar nisto, ou arriscamo-nos a perder de vez as qualidades que fazem de nós animais únicos, e culpabilizemos o TEMPO, pois seria grave culpabilizarmo-nos enquanto HUMANIDADE.
v. LEAL BARROS


O POVO É BOM TIPO #002

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ENTRE TERRA E MAR »»» v. LEAL BARROS


DESASSOSSEGADAMENTE #003

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"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ele própria, te força a ser escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis e aos deuses mesmo, que se bastam pela força mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor, vêem-se livres dos triunfos que adoraram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, onde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói se não ter-me doído."
Bernardo Soares

in "Livro do Desassossego"
Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003


PÉROLAS A PORCOS #002

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"A Morte de Napoleão" »»» Horace VERNET
Parece que muitos de nós, e isto é uma constatação destes quatro amigos, têm-se visto forçados ou talvez não, a interagirem com pessoas que eu denominaria de “sugadores”. Será este o tema que eu gostaria de partilhar, analisando o fenómeno, procurando alguma explicação para ele e se possível também, vislumbrar alguma solução para estas pragas.
De uma forma ou de outra escolhemos sempre os nossos amigos. Sempre que nos surge uma nova situação social, sem darmos por ela, ali estamos nós com pessoas à nossa volta. Se são líderes, se são aqueles que seguem os restantes, enfim, é como entrar num café e sentarmo-nos naquela mesinha, naquele canto e não no outro. Depois, temos aquela situação em que de repente nos vemos a braços com esses “sugadores”, quais piolhos indesejáveis na nossa cabecinha! Sempre que damos um passo lá estão eles para nos lembrar qual foi o sentido da marcha, lá estão eles para apontar o dedo ao que foi feito, mas o pior é que não são críticos, são olhares destruidores. Não servem para a nossa progressão, vão-nos diminuindo, querem ser o controlo de quem consente ou vai consentindo. Rodopiam à volta de dogmas herméticos que não aceitam que não sejam seguidos pelas vítimas. Os “sugadores” sabem o que é melhor para os seus eleitos - feliz de quem pode contar com o apoio dessas almas bondosas, pois tal privilégio não está ao alcance de todos! Esses fantasmas instalam-se em nossas mentes e no seu grau mais grave, chegam a acordar e adormecer connosco. Os maiores e mais apetecidos alimentos dessas larvas são a insegurança, o medo, o sentido autocrítico e a honestidade. Nada mais delicioso de que uma vitima roída pelo medo de falhar, porque quer legitimamente ser melhor. Mais saboroso ainda, uma vitima que falhou e tem a coragem de o assumir! O que para eles tem tanto sabor é ver a vitima destroçada pelo falhanço – “que delícia mesmo!”. O parasita ganha assim força, exulta, ficando assim com mais poder, pois sua majestade em toda a sua santa sabedoria, sabia que o desgraçado iria cometer tal ignomínia, porque é sempre omnisciente e zela sempre pelo bem-estar do seu súbdito. O “sugador” fica apavorado com a ideia de perder o seu alimento. O perigo para ele é um sujeito rebelde que ganhou força, que pode sair da sua esfera de controlo, então ele enfurece-se e desfere golpes. Ataca a segurança (só o bicho pode ser seguro, porque dele é que parte o que está certo e o que está certo não se discute, aceita-se e ponto final) e ataca a dignidade (o sujeito não presta porque não o quer seguir).
Os “sugadores” querem ser amados mas não conseguem dar amor. As estrelas fazem os outros brilhar enquanto que os buracos negros ofuscam, atraem e destroem. Os “sugadores” são buracos negros. Os “sugadores” são perigosos porque desesperam quando as presas os ignoram, os “sugadores” são o centro do mundo, tudo gira em sua volta, os “sugadores” são poder.
Importa dar amor aos bichos? Importa sim. Não podemos é alimentar a ganância, a ambição, o poder pelo poder e acima de tudo o poder de um ser humano sobre o outro. Importa sermos livres, importa o diálogo, importa o amor. Estes roedores estão em todo lado e ficam cada vez mais subtis nos seus meios, é preciso ter visão e sentir para os desmascarar. A razão nunca se impôs a ninguém! Sejamos livres, livres de ser aquilo que somos, donos da nossa própria razão. As cruzadas e as conquistas já lá foram. O tempo de conquistar o outro pelo poder também. O novo império vem do interior de cada um e não escraviza ninguém.
PS: ALEX, consegues relacionar algum elemento deste texto com a estória de vida de alguma nobre existência?
alves PEDRO


E DEPOIS DO CAFÉ? #002

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Numa destas tardes, de visita ao Centro Português de Fotografia, à procura de me imiscuir no trabalho do Vari Caramés, deparei-me com uma das exposições mais arrepiantes, no bom sentido do termo, que tive oportunidade de ver em toda a minha vida. Por irónico que pareça não falo da exposição do Vari Caramés que procurava. Os que visitaram o CPF esta temporada devem saber a que exposição me refiro. “La Piel en La Mirada” é poesia, é um documento extraordinário do que é ser humano, é a beleza do corpo imperfeito e o traço firme do corpo perfeito, é, sobretudo, um encontro connosco próprios, com aquilo que nos atrai ou repulsa quando olhámos o outro.
Juan José Molina, autor deste trabalho fantástico, cartografa-nos a pele e o olhar com um rigor e um detalhe impressionantes. Sentimos em cada retrato, em cada corpo, um pouco de nós, um pouco da nossa pele e do nosso olhar, como se estivéssemos despidos durante todo o percurso da exposição. Como se as imagens não fossem suficientemente fortes, Juan José Molina convida cada um dos fotografados a legendar o seu retrato. É então que os nossos pelos se levantam quando olhamos um nu de uma senhora mastectomizada que nos diz: “Esta es la imagen del cuerpo que a modo de vestido manifesta mi existência. Lo uso para realizar en la vida la aventura que tengo encomendada. A través de el percibo el mundo y disfruto del esplendor de su belleza. Remendado como está, lo respecto y cuido con esmero, porque al igual que tú, forma parte del todo y es un ponto de luz del único Universo – Sencillamente soy, yo soy eso”.
Palavras para quê?

Obrigado Núria Doménech por existir, obrigado Juan José Molina por este belíssimo trabalho.
v. LEAL BARROS


Imagens retiradas do site oficial de Juan José Molina »»»
www.gomez-molina.com


NA CAUDA DO PIANO #001

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"MARIA RITA tinha 16 anos e trabalhava numa revista para adolescentes, em São Paulo. Na época, achou num livro um personagem em dúvida entre a carreira militar e a poesia. Naquela estória, o que um coadjuvante fez para ajudar foi disparar o seguinte: "A pergunta que você tem que se fazer, na calada da noite, no momento mais solitário da sua vida, é se consegue viver sem escrever." Maria Rita, filha de dois ícones da música brasileira, Elis Regina e Cesar Camargo Mariano, resolveu encarar um teste parecido. Ela só trocou "escrever" por "cantar". Quase uma década depois, prestes a lançar seu primeiro disco pela Warner Music, a moça chega à conclusão de que foi ali que a semente da música começou a crescer dentro dela. "Acho que se me impedissem de cantar, eu pirava", confessa Maria Rita, lembrando em seguida que na escola o pessoal sabia como estava seu humor dependendo da música que ela chegava cantando. "Se eu não estivesse cantando, o negócio estava barra pesada", recorda.
Cantar mais seriamente foi algo que ela só começou a fazer mesmo aos 24 anos. Agora, com 26, não acha que foi tarde. "Você se achar no mundo é uma tarefa muito difícil", diz a jovem que se formou em comunicação social e estudos latino-americanos nos EUA, onde morou com o pai. O jornalismo entrou em pauta quando uma professora elogiou uma redação que a Maria Rita tinha feito. Com a música foi diferente. De tanto dizerem que ela precisava cantar, uma certa resistência foi criada. "Encaro a vida como um grande processo feito de vários pequenos processos no caminho", ensina. "Sempre quis cantar. Mas a questão não era querer. Era por quê. Não gosto de fazer nada sem ter um porquê. Fica mais fácil quando você tem um objetivo, uma meta. O motivo passou a existir quando percebi que ficaria louca se não cantasse", reafirma.
Diziam a ela: "Você tem que cantar!" E a jovem: "Por quê?" Maria Rita lembra que, numa festa, cantou e em certas pessoas isso até provocou choro. "Puts, que povo mala... Eu não sou a minha mãe, mas que saco! Cheguei a ter uma reação drástica com uma pessoa que chorou. Disse assim: 'Escuta, ela não volta mais.' Virei as costas e saí", lembra, certa de que agora sabe lidar melhor com situações deste tipo. "Se eu me lançasse aos 16 anos, teria pirado; não estaria aqui agora, não", emenda.
O aprendizado basicamente se deu todo assim, de maneira instintiva e informal. Uma conversa com o pai, quando era mais jovem, ilustra bem isso. Maria Rita pediu que Camargo Mariano a ensinasse a tocar piano. Diante de uma negativa, encolheu-se: "Ok, você não tem tempo, não é?" O pai, que com certeza é uma das grandes referências musicais dela, discordou; disse que tempo, se fosse o caso, ele arrumaria. O problema é que ele aprendera sozinho... "O que ele toca ele não aprendeu com ninguém, então ele não tem o que me passar", entende agora Maria Rita, que seguiu trilha parecida. Soltava a voz e pronto. Passou a fazer aulas de canto, mais tarde, para "saber usar o instrumento". Ela até gostaria de ter uma bagagem mais formal, mas por outro lado mostra-se satisfeita com os caminhos que escolheu guiada pelo instinto e pelo coração.
Esse instinto fez com que ela aproveitasse o universo musical em que se encontrava mergulhada para ir além do pop óbvio que cantarolava na adolescência. Ouviu jazz, música instrumental, rap (este, principalmente nos EUA)... Por falar em rap, quase não resistiu à tentação de colocar um DJ fazendo scratch (aquele efeito que parece o de um disco sendo arranhado) em seu disco de estréia. Quem sabe um dia... Maria Rita deixa a possibilidade no ar. Parece não ter pressa.
Pressa, aliás, é uma coisa que ela tenta evitar desde quando tinha 22 anos. Estava prestes a se formar, nos States, e passou por um susto. Fazia duas faculdades e tinha três empregos. Lembra ela: "Caí num hospital... Coração acelerado, não conseguia respirar. Achei que fosse morrer. Eu devia ter guardado aquela receita... A prescrição era: oito horas de sono por noite. O médico queria me dar calmante, remédio para dormir. Mas eu não quis. Imagina, me viciar nessas coisas aos 22 anos!" Maria Rita sabe que o mundo da música, muitas vezes, é um mundo de correria. Sabe que vai correr riscos. Mas tem certeza de uma coisa: vai conseguir manter-se bem. Quem a ouve falar sente tanta determinação em sua voz que não tem outra opção: acredita."

Texto e Imagem retirados do site oficial de Maria Rita »»» www.maria-rita.com


E DEPOIS DO CAFÉ? #001

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Domingo à noite, mais um jantar, mais uma constatação de que as coisas nem sempre correm como se espera mas que há sempre um modo de dar a volta por cima. E assim foi. Entramos no Coliseu os quatro, ninguém imagina o lugar reles em que nos sentamos! Não foi impedimento de nada, pois há pessoas, vozes e músicas capazes de fazer sorrir a alma mais sombria.
Lá entrou a miúda, a tal que é filha da Elis Regina, que paulatinamente nos foi envolvendo e transformando em alegria e simplicidade. Sem nos apercebermos já dançávamos e cantávamos, já nos divertíamos com os vizinhos e as vizinhas do lado que batiam com os pés no chão na expectativa de mais um encore. E assim foi, duas horas de simpatia, envolvimento, simplicidade e comoção que nos recarregaram as almas e nos deram alento para mais uma semana de trabalho. “Ó Rita tu sai da janela!”

Obrigado Maria Rita

v. LEAL BARROS


DESASSOSSEGADAMENTE #002

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"Todos aqueles acasos infelizes da nossa vida, em que fomos, ou ridículos, ou reles, ou atrasados, consideremo-los, à luz da nossa serenidade íntima, como incómodos de viagem. Neste mundo, viajantes, volentes ou involentes, entre nada e nada ou entre tudo e tudo, somos somente passageiros, que não devem dar demasiado vulto aos precalços do percurso, às contundências da trajectória. Consolo-me com isto, não sei se porque me consolo, se porque há nisto que me console. Mas a consolação fictícia torna-se-me verdade se não penso nela.
Depois, há tantas consolações! Há o céu azul alto, limpo e sereno, onde bóiam sempre nuvens imperfeitas. Há a brisa leve, que agita os ramos densos das árvores, se é no campo; que faz oscilar as roupas estendidas, nos quartos andares, ou quintos, se é na cidade. Há o calor ou o fresco, se os há, e sempre, no fundo, uma memória, com sua saudade, com sua esperança, e um sorriso de magia à janela do mundo, o que desejamos batendo à porta do que somos, como pedintes que são o Cristo."
Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"
Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003


PÉROLAS A PORCOS #001

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O OUTRO LADO

A silhueta debruçada no chão (1) é sempre mais concisa e mais enigmática do que a forma mãe. Ao olhá-la ela possui a força de um touro preto, é uma espécie de máquina com funcionamento interno obscuro e silencioso que adquire vida própria e da qual não adivinhamos nada, apenas especulamos sentidos. O seu mistério reside precisamente na contradição que a origina, se por um lado ela depende da forma mãe para nascer, por outro, adquire uma independência e uma identidade únicas que extravasam a sua origem. Ela – a sombra – é sempre o outro lado, mas é ela também. Este é também o mistério da VIDA.

Tendemos a olhar o mundo azul e cor-de-rosa (2) seduzidos por toda a beleza que dele se solta. Observamo-lo com a ingenuidade das crianças e procuramos na sua pele, na sua face, uma resposta e um sentido para aquilo que fazemos. É uma procura solitária em que o olhar se deleita com o visível, com o real e nos absorve de forma vampirizante. Não há neste processo qualquer tipo de filtro entre nós e o outro. Tal qual uma árvore solitária (3), somos espectadores da paisagem. O visto é tido como certo para os nossos olhos e portanto, não há dúvida, não há questão, apenas fascínio. Diga-se que esta forma de olhar é a mais pura, a mais honesta, porque neste processo a candura e o acreditar são incondicionais, são paixão.
É então que no decorrer da vida nos apercebemos da virtualidade do mundo que observávamos. Os acontecimentos giram à nossa volta (4) e o que tínhamos como puro e belo, afinal não é real, ou então, é real mas é podre. Apercebemo-nos que estamos perdidos, que não há uma terceira perna que permita equilibrar a mesa da verdade. Vemos o real e a sombra em simultâneo (5) e a dúvida nasce (em quem acreditar?). Se por um lado a dúvida nos defende daquilo que observamos ou sentimos, por outro, ela funciona em nós como um véu, uma cortina translúcida que nos separa do real. Duvidar obriga-nos a ganhar distância em relação ao que vemos, quebra o imediatismo entre olhar e sentir, porque questiona a verdade entre o que se vê e o que se sente. Para que a desilusão, nascida da prova de que a dúvida era correcta não nos atinja, começamos a ver o mundo por uma janela (6) escondendo-nos atrás de vidros protectores olhando covardemente o que se passa lá fora. Já não há crença no olhar e no sentir. Somos nesta fase da vida qualquer coisa e muitas vezes aquilo que o mundo quer que sejamos.
A subida da escada é a fase crucial (7). É a peneira que separa o fraco do forte. Subi-la significa escolher ver directamente o real, desistir dela é a atitude confortável e despojada de carácter, de quem covardemente se mantém passivo olhando atrás de uma janela. Infelizmente há quem nunca decida subir a escada e, não há coisa mais triste do que olhar um velho que teve medo de fazer o caminho. Mas, deleitemo-nos com os que optam por subir. Há quase como que um revigorar no olhar. A dúvida continua mas a vontade de guardar o mundo é superior (8). Volta-se a querer olhar o céu, não com o fascínio ingénuo das crianças mas com vontade de o perceber e do o guardar assim, azul (9). É como se resgatasse de novo o tempo e toda a vida fosse um filme e todo o olhar fosse contemplação (10). Sentimos que o coração se recompôs e que o olhar já não é medo nem dor, é vida. E porque a dúvida quando nasce em nós persiste eternamente voltamos a olhar a janela (11) e sabemos que por detrás dela estão aqueles que decidiram não subir a escada e sabemos que se protegem e sabemos que nós não estamos protegidos e sabemos que tudo isso não importa nada, porque, deste lado há mais luz e o que vemos é a VIDA reflectida.
Encontrámo-nos de novo, ou mais precisamente, descobrimos O OUTRO LADO de nós. A silhueta agora desenhada no chão é a nossa (12) e então sabemos que somos mais concisos e enigmáticos do que imaginávamos ser. Sabemos que possuímos a tal força do touro preto e que o funcionamento obscuro e silencioso é o mecanismo da nossa alma. Como uma sombra, somos sempre o outro lado, o lado que desconfia e duvida, o lado que tem medo e que cai, mas somos nós também. O mais importante é manter o equilíbrio entre o que se rouba do mundo (13) e o que dele guardamos em nós.

Para quê fecharmos a porta? (14) Para quê resguardarmo-nos atrás de uma janela que o máximo que nos oferece é uma paisagem recortada da realidade? Apesar do medo e do olhar do outro há sempre a esperança viva de fotografarmos o mundo da nossa maneira (15), de reflectirmos sobre ele procurando sempre o outro lado das coisas. No fundo há sempre alguém com uma sensibilidade parecida com a nossa e que no meio da confusão busca a verdade em si (16), que procura a robustez e a simplicidade das catedrais românicas no alto das cidades (17) e que guarda do mundo o mesmo que guardamos nós (18).
v. LEAL BARROS


O POVO É BOM TIPO #001

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PRECISO DE TI! »»» v. LEAL BARROS


DESASSOSSEGADAMENTE #001

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"O povo é bom tipo.
O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios.
Quando o povo perde a tradição, quer dizer que se quebrou o laço social; e quando se quebra o laço social, resulta que se quebra o laço social entre a minoria e o povo. E quando se quebra o laço entre a minoria e o povo, acabam a arte e a verdadeira ciência, cessam as agências principais, de cuja existência a civilização deriva.
Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de quem fui ontem? Existir é desmentir-se. Não há nada mais simbólico da vida do que aquelas notícias dos jornais que desmentem hoje o que o próprio jornal disse ontem.
Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer. Creio que estes princípios são fundamentais."
Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"
Obras de Fernando Pessoa
edição de Richard Zenith
Assírio & Alvim
4ª Edição - Maio 2003


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